Este estudo faz parte de um projeto interinstitucional que envolve não apenas a Unifesp, mas também universidades renomadas como a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), além da Universidade de São Paulo (USP). Ao analisar amostras coletadas, a equipe confirmou a presença de sangue, embora não consiga determinar a data exata de quando esse material foi depositado ou recuperar perfis de DNA, em virtude da degradação das amostras e das reformas sucessivas que ocorreram no edifício ao longo dos anos.
Como parte das investigações, foi descoberto um calendário gravado na parede de um banheiro no terceiro andar, sob camadas de tinta e outros reparos. Com anotações que indicam os dias de 23 a 31 de outubro e 1º a 4 de novembro, o calendário foi interpretado pelos pesquisadores como uma forma de os prisioneiros preservarem uma noção de tempo em um ambiente tão opressivo. A datação sugerida para as anotações se remete a 1970 ou 1981, mas, através da correlação com testemunhos de ex-prisioneiros, foi possível atribuí-las ao ano de 1970.
O complexo do DOI-Codi, localizado na Rua Tutóia, na zona sul de São Paulo, acolheu mais de 7 mil pessoas durante seu funcionamento, e ao menos 52 mortes ocorridas lá são reconhecidas oficialmente. O prédio 2-a, que foi foco dessa pesquisa, é descrito por sobreviventes como um dos principais locais de tortura e interrogatório. As investigações foram desafiadas pela falta de documentos e plantas atualizadas do edifício, tendo os pesquisadores se apoiado em depoimentos e em análises das alterações físicas do local ao longo das décadas.
As ações práticas da pesquisa incluíram o uso de radar de penetração no solo e escaneamento 3D do complexo, além de escavações e análises laboratoriais realizadas em agosto de 2023. A equipe espera que estas descobertas sejam não apenas um marco na conscientização sobre as violações de direitos humanos, mas também uma forma de preservar a memória histórica das atrocidades cometidas e promover a justiça para as vítimas da repressão militar.
