Carruesco destacou em seu relato que a insistência da cliente em vê-la como um recurso disponível está enraizada em uma percepção comum e equivocada, que associa a presença de pessoas negras a funções auxiliares ou de serviço. “Para ela, era lógico que eu trabalhava ali e que estava ali para servi-la”, refletiu a desembargadora, ressaltando que a situação não era uma questão de má intenção da mulher, mas sim um reflexo de uma lógica social preponderante no Brasil: a de que o espaço de pessoas negras está muitas vezes limitado a cargos subalternos.
A desembargadora enfatizou que o verdadeiro problema reside na construção social que perpetua a ideia de que indivíduos negros não ocupam posições de poder e influência, como a que ela própria exerce. “Eu, desembargadora, sem a toga, sou apenas mais um corpo preto que a razão brasileira insiste em enxergar como serviçal”, declarou, afirmando que a responsabilidade não está apenas na ação da mulher, mas na ideologia enraizada que ela sem querer representa.
Carruesco expressou um chamado para a desconstrução dessa lógica insustentável, com a esperança de que, continuamente, seja possível mudar essas perspectivas, um dia de cada vez. A repercussão do seu desabafo sublinha a urgência em abordar questões de racismo e representatividade na sociedade brasileira.
Vale ressaltar que, segundo informações da Polícia Civil de Mato Grosso, não houve registro de boletim de ocorrência sobre o incidente, mas o relato da desembargadora aponta para uma conversa necessária sobre preconceito e a necessidade de transformação social.
