Desembargadora denuncia racismo ao ser confundida com funcionária em supermercado e reflete sobre estigmas da sociedade brasileira em relação a pessoas negras.

No último domingo, 17 de setembro, a desembargadora Adenir Carruesco, do Tribunal Regional do Trabalho da 23ª Região, usou suas redes sociais para relatar uma experiência desconcertante de discriminação racial que sofreu em um supermercado de Cuiabá, capital de Mato Grosso. Durante uma visita ao estabelecimento, após uma caminhada matinal, ela foi abordada por uma cliente que, na tentativa de obter informações sobre produtos, assumiu que a magistrada era uma funcionária da loja.

Carruesco destacou em seu relato que a insistência da cliente em vê-la como um recurso disponível está enraizada em uma percepção comum e equivocada, que associa a presença de pessoas negras a funções auxiliares ou de serviço. “Para ela, era lógico que eu trabalhava ali e que estava ali para servi-la”, refletiu a desembargadora, ressaltando que a situação não era uma questão de má intenção da mulher, mas sim um reflexo de uma lógica social preponderante no Brasil: a de que o espaço de pessoas negras está muitas vezes limitado a cargos subalternos.

A desembargadora enfatizou que o verdadeiro problema reside na construção social que perpetua a ideia de que indivíduos negros não ocupam posições de poder e influência, como a que ela própria exerce. “Eu, desembargadora, sem a toga, sou apenas mais um corpo preto que a razão brasileira insiste em enxergar como serviçal”, declarou, afirmando que a responsabilidade não está apenas na ação da mulher, mas na ideologia enraizada que ela sem querer representa.

Carruesco expressou um chamado para a desconstrução dessa lógica insustentável, com a esperança de que, continuamente, seja possível mudar essas perspectivas, um dia de cada vez. A repercussão do seu desabafo sublinha a urgência em abordar questões de racismo e representatividade na sociedade brasileira.

Vale ressaltar que, segundo informações da Polícia Civil de Mato Grosso, não houve registro de boletim de ocorrência sobre o incidente, mas o relato da desembargadora aponta para uma conversa necessária sobre preconceito e a necessidade de transformação social.

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