A velocidade desse crescimento pode ser atribuída a vários fatores. O projeto-piloto implementado pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), a colaboração estreita com a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e o surgimento de novos produtos financeiros têm sido cruciais para acelerar essa transformação. De acordo com Marcos da Rocha, diretor jurídico da Associação Brasileira de Empresas Tokenizadoras e Blockchain (ABToken), embora o Brasil esteja experimentando um crescimento acelerado na adoção da tokenização, com emissões atingindo R$ 1,5 bilhão apenas em janeiro deste ano, o verdadeiro diferencial reside na tecnologia blockchain, que promete aumentar a segurança e funcionalidade das operações financeiras.
Nos primórdios, a tokenização operava à margem do sistema financeiro convencional, mas essa separação vem perdendo força. Fintechs, como a AmFi, agora se envolvem em operações significativas com investidores institucionais, e bancos tradicionais estão integrando a tokenização em suas estratégias operacionais. O cofundador da AmFi, João Pirola, aponta que a divisão entre empresas tradicionais e aquelas voltadas à tecnologia logo se refletirá na capacidade de adoção da tokenização, e aqueles que não se adaptarem poderão ser deixados para trás.
Embora a CVM ainda esteja em processo de criação de regulamentos específicos, a instituição já está se mobilizando para compreender melhor a tokenização de valores mobiliários. Um grupo de trabalho foi estabelecido para criar um regime regulatório experimental, com a tarefa de investigar o registro, a custódia e a liquidação de ativos em plataformas de tecnologia de registro distribuído (DLT). Os especialistas acreditam que essa regulamentação pode trazer confiança e segurança à participação de investidores, especialmente em um mercado onde a confiança é fundamental.
O piloto da Anbima, lançado em fevereiro, é uma iniciativa ambiciosa que visa testar a aplicação da DLT no mercado de capitais brasileiro. A proposta, que já recebeu 39 casos de uso e selecionou 20, abrange desde emissões de debêntures até a gestão de fundos.
À medida que novas classes de ativos surgem, incluindo frações de imóveis, royalties musicais e até créditos de carbono, a versatilidade da tokenização se torna evidente. A expectativa é que, com o amadurecimento do mercado e a integração de tecnologias inovadoras, o Brasil possa seguir tendências globais e expandir suas operações de tokenização, incluindo fundos de investimento e ações no futuro próximo. Em suma, a tokenização não é apenas uma tendência passageira; ela pode, efetivamente, reformular a maneira como o mercado financeiro opera, aumentando a liquidez e democratizando o acesso aos investimentos.
