Setor Financeiro Mobiliza Apoio a Galípolo em Favor da Autonomia do Banco Central em Meio a Impasse no Senado

Na última quarta-feira, 20 de setembro, quatorze entidades do setor financeiro, entre elas a Federação Brasileira de Bancos (Febraban), emitiram uma nota conjunta em apoio ao presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo. O documento visa demonstrar respaldo à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) nº 65, de 2023, que busca ampliar a autonomia financeira e orçamentária do BC.

A divulgação da nota ocorre em um contexto de incerteza, uma vez que a votação da PEC foi adiada pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado. O presidente da CCJ, senador Otto Alencar (PSD-BA), anunciou que a decisão é fruto de uma vista coletiva, e que a nova data para votação será 27 de setembro.

A proposta em questão pretende transformar o Banco Central em uma “entidade pública de natureza especial”, conferindo-lhe maior autonomia técnica, operacional, administrativa, orçamentária e financeira. Apesar de o BC já contar com independência administrativa e operacional, estabelecida por uma lei de 2021, a dependência do Orçamento da União ainda é uma realidade. A PEC visa eliminar essa dependência, possibilitando que a instituição retenha recursos gerados pela senhoriagem — a receita proveniente da emissão de moeda —, potencialmente somando bilhões de reais anualmente.

Durante sua análise, Otto Alencar destacou o trabalho do relator, senador Plínio Valério (PSDB-AM), e afirmou que a proposta está “madura para ser votada”, citando múltiplas audiências públicas que discutiram o tema. Valério, em sua defesa da PEC, enfatizou a necessidade de fortalecer as ações do BC para assegurar a continuidade das políticas monetárias e mencionou que a discussão sobre a autonomia do BC vem sendo debatida há pelo menos dois anos.

A nota conjunta das entidades, que representa mais de 1,5 mil associados do setor financeiro — incluindo bancos tradicionais, fintechs, empresas de criptoeconomia e consórcios — argumenta que a modernização do BC é crucial para lidar com um sistema financeiro cada vez mais complexo. De acordo com as entidades, dar ao BC ferramentas adequadas não só aumenta a eficiência regulatória, mas também reduz a percepção de risco do Brasil, contribuindo para uma maior estabilidade da política monetária.

Além da autonomia orçamentária, a PEC também prevê a constitucionalização do sistema de pagamentos instantâneos, o Pix. Segundo o relator, o Banco Central ficará proibido de terceirizar sua operação ou cobrar tarifas de pessoas físicas, o que representa uma proteção adicional ao sistema.

Entretanto, a PEC não é unânime. O senador Rogério Carvalho (PT-SE) se opõe abertamente à proposta, argumentando que ela é inconstitucional por ser de iniciativa privativa do presidente. Carvalho sugere que o Banco Central mantenha sua natureza jurídica atual como autarquia, a fim de preservar a segurança jurídica em suas operações. Além disso, o Sindicato Nacional dos Funcionários do Banco Central (Sinal) critica a PEC, considerando-a um “salto no escuro”, que poderia fragilizar a supervisão do sistema financeiro e a transparência dos gastos públicos.

Pontos de tensão adicionais surgem em relação ao regime dos servidores. A proposta sugere que os funcionários do BC deixem de ser regidos pelo regime único da União e sejam transferidos para a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), o que gerou um debate acalorado. A discussão sobre a autonomia do BC e as possíveis modificações de sua estrutura seguem em pauta, refletindo as complexas dinâmicas do setor financeiro no Brasil.

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