De um total de 43 mulheres trans e travestis entrevistadas, observou-se que 40% relataram agressões verbais ligadas diretamente à sua identidade de gênero. Adicionalmente, 17% sofreram agressões físicas e 12% foram vítimas de violência sexual no mesmo período. Para Rolf Regehr, psicólogo responsável pela pesquisa, a escassez de dados populacionais oficiais dificulta uma análise estatística mais acurada, mas os resultados fornecem um panorama crucial sobre a naturalização da violência enfrentada por esse grupo.
O que chama a atenção dos especialistas é o fato de que muitas mulheres não conseguem identificar suas experiências como violência de gênero. Apenas 4% das entrevistadas relataram ter sofrido agressões, mas, ao serem questionadas sobre situações específicas, 56% reconheceram ter vivenciado episódios violentos. Esse fenômeno de normalização das agressões indica como o cotidiano pode se tornar um espaço hostil para essas mulheres.
Rafaela Miranda, uma das entrevistadas e escritora de 37 anos, conta como o medo de ser hostilizada em banheiros públicos a levou a evitar esses espaços. “Prefiro me segurar a entrar e passar por situações constrangedoras”, diz. A discriminação não se limita a espaços públicos; ela também é sentida em serviços de atendimento, com relatos de recusa em usar pronomes femininos mesmo com documentação correta.
Nas esferas de trabalho e educação, a exclusão é igualmente penalizadora. Cerca de 26% das entrevistadas afirmaram que não conseguem se sustentar, e 51% da amostra está empregada, mas, entre essas, muitas enfrentam dificuldades em salários adequados, com 56% ganhando menos que dois salários mínimos.
A exclusão social e as formas de discriminação acabam por restringir o acesso a direitos fundamentais e agravam as condições de vida dessas mulheres. Scarlety Pereira, uma copeira do Senado, destaca que a oportunidade dada a ela foi transformadora, permitindo que buscasse uma formação superior e se colocasse em uma posição diferente na sociedade.
O recorte específico sobre mulheres transexuais e travestis, fruto da pesquisa, será disponibilizado na página “Pesquisa Nacional” do Mapa Nacional da Violência de Gênero, uma plataforma interativa que reúne dados sobre a violência de gênero no Brasil, contribuindo para o desenvolvimento de políticas públicas mais eficazes e inclusivas.
A necessidade de visibilidade dessas experiências e desafios é fundamental para mudar essa realidade e garantir que as discussões sobre violência de gênero incluam as vozes de todos os segmentos da sociedade.



