Em uma declaração emitida nesta segunda-feira, a UFJF expressou uma retratação formal, afirmando que o uso inadequado dos restos mortais reflete um período sombrio na história da saúde pública brasileira. A universidade destacou que a marginalização dessas pessoas era justificada sob a premissa de segurança coletiva, resultando em uma série de violências e abusos durante sua vida e após a morte. Profundamente preocupante, a nota ressaltou que as vítimas eram frequentemente associadas a estigmas de incapacidade e perigosidade, o que contribuía para a perpetuação de práticas discriminatórias enraizadas em questões de gênero, classe social, orientação sexual e raça.
A UFJF também mencionou o infame Hospital Colônia de Barbacena, um local que se tornou sinônimo de maus-tratos e abandono, onde estima-se que mais de 60 mil vidas foram perdidas ao longo do século XX. Um número alarmante de corpos foi utilizado para fins acadêmicos, com alguns registros indicando que cerca de 169 cadáveres desse hospital foram destinados ao Instituto de Ciências Biológicas da UFJF entre 1962 e 1971. Em resposta a essa dor histórica, a universidade se comprometeu a implementar iniciativas educacionais sobre direitos humanos e saúde mental e a buscar apoio para a criação de um memorial dedicado a essas vidas.
A UFMG, que também se retratou por sua conexão com o Hospital Colônia, formalizou um pedido de desculpas e se comprometeu a incluir as atrocidades do passado em sua narrativa educativa. Desde o fim do século XX, ambas as instituições estabeleceram programas de doação voluntária de corpos, assegurando que todos os restos recebidos para estudos de anatomia são oriundos de consentimento explícito e respeitam a dignidade dos doadores.
Essas retratações são parte de um esforço mais amplo para reparar o impacto histórico de políticas de saúde mental que desumanizaram e marginalizaram indivíduos com transtornos mentais no Brasil. Ao reconhecer sua responsabilidade, as universidades esperam facilitar um diálogo mais aberto sobre esses temas e contribuir para o combate ao estigma que, ainda hoje, afeta muitas vidas.





