Projeto Usina de Arte, em Água Preta, propõe reocupação do lugar de forma sustentável para população do entorno

Entrar na Usina Santa Terezinha, em Água Preta, na Mata Sul de Pernambuco, chega a arrepiar. A estrutura em ruína tem marcas de um trabalho esgotante, com a carga de uma atividade idem, mas que acabou por ali. O cenário que foi casa de mais de duas mil pessoas em tempo de safra 20 anos atrás busca um resgate para atual e futura gerações. Filhos e netos, hoje, fazem o caminho de volta, mas de uma maneira diferente. O sintoma de dependência do trabalho na cana-de-açúcar vai sendo substituído. Empreendedorismo e cultura assumem nas primeiras intervenções no local. E é onde Carolina dos Santos, de 17 anos, moradora da vila da usina, passeia para mostrar parte do seu trabalho novo. Ela integra o projeto Usina de Arte, uma reocupação do lugar. Dessa vez, o trabalho é outro. Longe da cana e perto da cultura.

Conforme André Clemente do DP, ela estuda administração e informática em Palmares, cidade polo da região, e viu que o roteiro dos pais, amigos dos pais, dos tios… não precisava se repetir. “Meu pai trabalhou aqui e agora eu faço parte de um pedaço que ele fez. Quem não trabalha com política tem que sair. Não tem opção. E quem fica depende de dinheiro de quem foi. Agora vai ser diferente. Não vou precisar trabalhar e mandar dinheiro porque vou estar aqui, trabalhando pra o lugar que eu vivo. E eu agradeço a seu Ricardo por isso”, destaca.

O primeiro objetivo é esse: despertar o olhar da comunidade com a arte e gerar oportunidades e negócios que quebrem o paradigma de trabalho com cana. Crianças e jovens veem o início da construção do que será de fato a reocupação do lugar, com arte. As máquinas que depositavam o açúcar são apoio para a instalação de oficinas de pintura e o antigo escritório vira palco de escola de música. Do lado de fora, a devastação é construtiva, de um futuro para a mesma vila, para que ela se resolva em meio a 30 hectares de verde e mais de três mil espécies de plantas no futuro jardim botânico.

O seu Ricardo é Ricardo Pessoa de Queiroz, “lá de cima, da casa grande”, como apontam os moradores indicando o nosso caminho ao encontro dele. É só referência. É embaixo, no chão, que ele tira do papel o que vai jogar luz à Mata Sul, esquecida na interiorização dos bons momentos da economia pernambucana. O bisneto do homem que construiu a vila para abrigar os trabalhadores da usina, lá em 1926, e que se afastou em 1980, “voltou” em 2012 e encontrou uma comunidade cética e sem qualquer relação com a usina. Decidiu “interagir”. Sua esposa, Bruna Pessoa de Queiroz, criou a associação Jacuípe, em homenagem ao rio local, que divide os estados de Alagoas e Pernambuco e comanda junto com Bárbara Maranhão e o artista José Rufino. É a associação dessas mentes “malucas” que vai tirar o projeto do papel.

“Me incomodava muito o fato de sempre existir esperança de a usina voltar a moer. Quando a gente voltou pra cá, ficava essa pergunta. E veio a ideia. Cada um pode ser a sua própria usina. Começamos o processo de trazer arte e da cultura”, pontua. “E quando se aprende um ofício, seja pintura, dança, fotografia, vai para a vida dele e ele escolhe o limite para crescer. A usina quer isso para a comunidade. A independência financeira da forma rica.”

O jardim botânico será integrado a obras de artistas como Paulo Bruscky, Márcio Almeida, Marcelo Silveira, Paulo Meira e Francisco Brennand. A ideia é que as obras habitem o jardim, entre as lagoas e sem as limitações de alguns galpões da usina e que hoje são as primeiras intervenções artísticas do projeto. Ele mostra o que já está plantando e fala como quem descreve um filho: “aqui ficarão as árvores, as palmeiras…. Ali ficarão as plantas de paisagismo e botânica”, apontou. Aproveita e, manualmente, corta as folhas secas das palmeiras: “planta seca não regenera. A gente corta para que a energia da planta não seja desperdiçada”, diz encantado.

Renovação
Projeto Usina Santa Terezinha
- Equipamentos: Hangar transformado em exposição fixa do artista paraibano José Rufino. Entre as peças, uma réplica legítima do Rio Jacuípe, que divide os estados de Alagoas e Pernambuco, onde fica a Usina.
- Jardins: por todo o terreno da usina com peças de Hugo França, que produz mobiliário urbano e de interação a partir da madeira de árvores ou resíduos de reservas florestais
- Exposição fixa: peças de arte de Carlos Melo
- Jardim Botânico: integrado, com cerca de 29 hectares de área e 3 mil espécies de plantas, entre elas 140 espécies de palmeiras, ipês e plantas nativas. Além de duas lagoas construídas abastecidas com nascentes naturais, 100% por força de gravidade.
- Festival Arte na usina: com oficinas de pintura, fotografia, cinema, entre outras capacitações para a comunidade
- Música: escola de música e fábrica de instrumentos
- Atividades empreendedoras: parcerias com o Sebrae para identificar oportunidades de negócios e fomentar o negócio próprio da comunidade, a partir da demanda criada pelo projeto na usina

“Me incomodava muito o fato de sempre existir esperança de a usina voltar a moer. Quando a gente voltou para cá, ficava essa pergunta. E veio a ideia. Cada um pode ser a sua usina”
Ricardo Pessoa de Queiroz, empresário
Assista:
O artista plástico e curador José Rufino apresenta o projeto Usina de Arte, que acontece na Usina Santa Terezinha, na Zona da Mata, sul de Pernambuco. Trata-se de uma mistura de centro cultural com residências artísticas e festival de cultura.












