No contexto deste cenário, a professora Luziêt Fontenele Gomes, do Departamento de Ciências Humanas e Letras da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), e o advogado Leandro Sarno, ex-aluno da Especialização em Gestão Pública Municipal da mesma instituição, se debruçaram sobre uma pesquisa que investiga os impactos socioeconômicos da prisão de jovens negros no Brasil. A partir de uma revisão abrangente da literatura, os pesquisadores encontraram um consenso acerca da política de punição seletiva implementada pelo Estado, a qual se sustenta no racismo estrutural e atinge principalmente os jovens das periferias.
Os resultados apontam que os efeitos do encarceramento são vastos e complexos. Um dos impactos mais significativos é a interrupção do convívio familiar, que compromete a educação e o bem-estar de dependentes, além de gerar vulnerabilidades acentuadas, especialmente para mulheres jovens detidas. As crianças, sem a presença de um responsável, frequentemente acabam sendo encaminhadas para abrigos ou para a adoção.
A pesquisa revela ainda que muitos desses jovens enfrentam dificuldades para se reintegrar às suas famílias, comunidades e ao mercado de trabalho após a prisão. Essa exclusão contribui para a perpetuação de ciclos de vulnerabilidade e reincidência criminal, demonstrando que os efeitos do encarceramento perduram muito além do cumprimento da pena. De acordo com Leandro Sarno, a sociedade muitas vezes interpreta os problemas associados ao encarceramento como questões de segurança pública, desconsiderando as raízes socioeconômicas que fundamentam essa crise.
Os pesquisadores argumentam que a alta taxa de encarceramento da população negra é fruto de um processo histórico de exclusão social que remonta ao período pós-escravidão. Mesmo após o fim da escravidão, as políticas públicas deixaram essa parcela da população em condição de abandono. Ambos ressaltam que é essencial suscitar uma conscientização crítica, desafiando a visão estigmatizada acerca do encarceramento, que tende a ser reduzida à noção de escolhas individuais ou maior propensão ao crime.
Por fim, ressaltam a importância de promover a divulgação científica sobre o encarceramento em massa, a fim de desmistificar preconceitos e contribuir para a construção de políticas públicas mais justas e eficazes. A discussão precisa ser ampliada, rompendo as barreiras do discurso meramente punitivo e considerando as implicações sociais e econômicas que essa realidade acarreta.




