Intolerância religiosa no Rio cresce 117% em um ano, com vizinhos protagonizando ameaças a terreiros de umbanda; denúncias somam 228 em 2023.

Crescimento da Intolerância Religiosa no Rio de Janeiro

Entre os meses de janeiro e julho deste ano, o estado do Rio de Janeiro registrou alarmantes 228 denúncias de intolerância religiosa, posicionando-se como o segundo estado com mais ocorrências no país, atrás apenas de São Paulo, que contabilizou 329 denúncias. Vale ressaltar que, embora São Paulo tenha uma população que supera em mais de duas vezes a do Rio, a disparidade em número de casos ilustra a gravidade da situação fluminense.

Um destaque preocupante ocorreu em junho, com um aumento significativo nas denúncias: foram 37 casos, um crescimento de 117% em relação ao mesmo mês do ano anterior, que somou apenas 17 ocorrências. Em um episódio particularmente emblemático, membros do terreiro Sementes de Oxóssi, localizado no Méier, Zona Norte, narraram experiências de preconceito e ameaças. Pai Alexandre de Oxóssi, representante do terreiro, descreveu um incidente em que uma vizinha gravou um áudio hostil e enviou para a esposa do proprietário do imóvel, manifestando sua insatisfação com a presença do centro de umbanda.

Dados do Disque 100 indicam que, em muitos casos, a intolerância é perpetrada por pessoas próximas às vítimas. Sorprendentemente, os vizinhos figuram como autores em 54 das denúncias, evidenciando que a discriminação ocorre, frequentemente, nas comunidades onde os terreiros e templos estão situados. Um dos áudios circulados expressou hostilidade ao dizer: “Os vizinhos vão fazer um abaixo-assinado para multar vocês! É um barulho horrível.”

Pai Alexandre relatou ainda que o proprietário da casa alugou o espaço para o terreiro sem manifestar objeções, mas alertou sobre a insatisfação da vizinhança. O sacerdote, que já possui uma vasta trajetória na umbanda, expressou sua surpresa e indignação diante da situação, enfatizando que as atividades do terreiro não produzem barulho excessivo, argumentando que a “gira” tinha finalizado antes das 22h e não envolvia instrumentos sonoros.

Por fim, outro ataque ocorreu em julho, quando uma vizinha decidiu ligar uma caixa de som em volume alto durante uma atividade do terreiro, promovendo um louvor evangélico de forma provocativa. Pai Alexandre questionou se a situação seria semelhante em relação a uma igreja católica, levantando a importância de refletir sobre o respeito à diversidade religiosa.

Com as ameaças à prática da fé se tornando cada vez mais visíveis, o sacerdote afirmou estar arrecadando fundos para instalar isolamento acústico no terreiro, estimando um custo de R$ 9 mil, o que demonstra mais uma vez as barreiras enfrentadas por aqueles que buscam simplesmente exercer suas crenças. Apesar da legislação brasileira prever penalidades para atos de discriminação religiosa, as narrativas de intolerância e hostilidade permanecem alarmantes, revelando uma necessidade urgente de conscientização e respeito entre as diferentes manifestações de fé.

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