Esse aumento inflacionário fez com que o próprio presidente admitisse, com franqueza, as dificuldades econômicas enfrentadas, afirmando que “o dado é ruim” em uma rede social. A situação se agrava ainda mais com a atividade econômica do país, que encolheu 2,6% em fevereiro comparado a janeiro, acumulando uma queda de 2,1% nos últimos doze meses. A produção industrial, um dos pilares fundamentais da economia argentina, experimentou uma queda alarmante de 4% em fevereiro, somando um total de 8,7% de perdas no último ano.
Profissionais da economia, como o professor Paulo Gala, criticam o plano econômico de Milei, qualificando-o como “simplista” e incapaz de lidar com a herança deixada por administrações anteriores. Gala sustenta que a desconfiança em relação ao peso argentino tem levado a uma tendência de dolarização, semelhante ao que ocorreu no Brasil antes do Plano Real. Ele aponta que a estratégia de redução do tamanho do Estado e austeridade fiscal não basta para estabilizar a economia, sugerindo que medidas mais profundas, como a criação de uma nova moeda, são necessárias.
Além da crise econômica, novas investigações sobre corrupção também atormentam o governo Milei. O chefe de gabinete, Manuel Adorni, está sob suspeita de enriquecimento ilícito, o que contribuiu para a queda da popularidade do presidente. Pesquisas apontam que mais de 60% da população desaprova sua administração, o que é um reflexo direto das crises que se inter-relacionam. A promessa de combate à corrupção, um dos pilares de sua campanha, parece ter sido comprometida, e isso gera um desgaste em sua imagem.
Enquanto alguns analistas preveem uma possível recessão e uma nova crise cambial devido aos altos níveis de dívida em dólares, o governo Milei tem buscado novos empréstimos internacionais para controlar o valor do peso. Apesar de um leve otimismo no mercado financeiro, com a Fitch Rating elevando a nota de crédito do país, essa mudança não altera as condições econômicas adversas enfrentadas pela população, que ainda sente o peso da inflação e a insegurança econômica.
Diante de um cenário tão desafiador, a posição do governo Milei continua a ser evaluada em meio a questionamentos sobre sua capacidade de se recuperar antes das eleições presidenciais de 2027. A oposição também está em um estado de desorganização, o que, paradoxalmente, pode oferecer algum alívio temporário ao governo em crise.
