Histórias guardadas: Museu Penitenciário revela memórias do Carandiru em São Paulo. História, arte e objetos contam a saga dos detentos.

Na tarde de 8 de dezembro de 2002, a Casa de Detenção do Carandiru, situada na zona norte de São Paulo, foi implodida em menos de dez segundos, encerrando um ciclo de mais de 80 anos de história prisional. O local, palco de um dos maiores massacres do sistema carcerário de São Paulo em 1992, quando 111 presos foram executados por policiais militares, foi transformado em um parque que abriga o Museu Penitenciário Paulista.

Neste museu, os visitantes podem apreciar as produções artísticas e profissionalizantes feitas por detentos, além das engenhosas gambiarras criadas por eles para contornar a falta de recursos. Um exemplo disso são os micro-ondas improvisados com caixas de papelão, pregadores de madeira e alumínio de maços de cigarro, que permitiam aos presidiários assar pães sem radiação. Essas práticas hoje não são mais vistas nas prisões de São Paulo.

A historiadora Josinete Barros de Lima, conhecida como Josi, relata que o acervo do museu remonta à fundação da Penitenciária do Estado em 1920, sendo gerido pela Secretaria da Administração Penitenciária (SAP). O local exibia as obras dos presos que frequentavam oficinas artísticas e profissionalizantes, recebendo certificados dos cursos para saírem da cadeia com uma profissão.

Diferentemente da superlotação e da influência do Primeiro Comando da Capital (PCC) nas prisões atuais, a Penitenciária do Estado era um modelo de modernidade arquitetônica e disciplinar. Conhecida como Casa de Regeneração, cada preso tinha uma cela individual, com um projeto reconhecido internacionalmente pela ressocialização dos apenados.

Com o passar das décadas, o complexo penitenciário foi se deteriorando e dando lugar à realidade caótica dos presídios atuais. O Museu Penitenciário Paulista resgata objetos e memórias dessa época, como os cachimbos improvisados (“maricas”) e as tatuagens feitas como forma de comunicação entre os detentos.

A visitação ao museu permite aos interessados conhecer também a prática ilegal da produção de “maria louca” pelos presidiários, uma bebida feita a partir de frutas e açúcar que pode ser destilada, resultando em um teor alcoólico semelhante ao do absinto. A história do sistema carcerário é apresentada de forma educativa, destacando o trabalho feito no passado e as oficinas disponíveis para a reeducação e a reintegração dos presos à sociedade de forma lícita.

O Museu Penitenciário Paulista funciona de segunda a sexta-feira, das 9h às 16h, e está localizado na Avenida Zaki Narchi, 1207, Carandiru. Para maiores informações, o contato é (11) 2221-0275.

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