Empresas Atrasam Adaptação à Duplicata Escritural, Apesar de Novo Modelo Prometer Agilizar R$ 10 Trilhões em Recebíveis Anuais

Às portas das primeiras operações oficiais em um ambiente controlado, a duplicata escritural ainda não se consolidou como prioridade em muitas empresas. Este novo mecanismo financeiro, que tem o potencial de movimentar cerca de R$ 10 trilhões anualmente, é fundamental para o mercado de antecipação de recebíveis. A expectativa é que a criação de um novo balcão se torne um catalisador para o uso deste sistema.

Entretanto, muitos setores da economia ainda se encontram em estágios iniciais de preparação para essa nova realidade. Informações extraídas de diversas fontes indicam que a duplicata escritural tem competido com assuntos considerados mais urgentes, como as modificações propostas pela reforma tributária. Essa situação resulta em um ambiente repleto de incertezas, especialmente entre aqueles que atuam na ponta da cadeia produtiva.

Uma pesquisa realizada pela fintech Monkey revelou que uma boa parte dos fornecedores ainda não está familiarizada com o conceito de duplicata escritural. Surpreendentemente, 50% dos consultados admitiram desconhecer o assunto, e apenas 15,4% afirmaram ter um conhecimento aprofundado sobre ele. Além disso, mesmo entre os que já conhecem a ferramenta, a maioria não compreende os prazos regulatórios relacionados à sua adoção. Curiosamente, mais de 70% dos entrevistados ainda não conseguem visualizar as mudanças que a digitalização trará na prática.

A Monkey, que conecta mais de 40 mil fornecedores com sacados e instituições financeiras, observa que as grandes empresas estão se adaptando a essa nova proposta mais rapidamente do que as pequenas e médias, que frequentemente desconhecem o funcionamento da duplicata escritural. Roberta Ferraz, diretora de novos negócios da fintech, destacou essa disparidade.

O cronograma de implementação em fases definido pelo Banco Central também contribui para a falta de urgência no processo de adaptação por parte das empresas. Recentemente, o BC promoveu um evento em Brasília para o lançamento do novo ecossistema financeiro, mas as registradoras responsáveis ainda aguardam a liberação final para iniciar a produção assistida. Espera-se que essa autorização ocorra ainda neste mês, permitindo que as registradoras possam dar início a um novo ciclo simultaneamente.

Durante a produção assistida, um grupo seleto realizará os primeiros negócios no novo modelo, em um ambiente controlado. A previsão é que a obrigatoriedade da duplicata escritural comece de maneira escalonada, começando pelas grandes empresas e se estendendo, ao longo dos anos, para incluir pequenas e médias.

Ainda que o horizonte para a obrigatoriedade seja extenso, diversos especialistas expressam preocupação com a eficácia da transição. O histórico de falhas na regulamentação de recebíveis de cartões de crédito em 2021 gerou receios sobre a adequação dos sistemas envolvidos na nova configuração. Dada a complexidade do mercado de duplicatas—que abrange uma quantidade muito maior de participantes em comparação ao de cartões—espera-se que a adaptação à nova norma seja um desafio significativo.

Além disso, as empresas enfrentam dificuldades com a qualidade dos dados, com previsão de que 10% dos títulos gerados apresentem erros cadastrais. Por essa razão, o tempo médio para que uma empresa valide uma nota, crucial para que a duplicata seja reconhecida, pode se estender por dias, o que vai de encontro à agilidade exigida no novo regime. A falta de prontidão para a transição representa um dos maiores obstáculos à implementação bem-sucedida do modelo de duplicata escritural.

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