DIREITOS HUMANOS – Estudo revela que 54% das brasileiras sofreram violência, mas apenas 11% dos homens admitem agressões; impunidade e lenta Justiça ainda são obstáculos.

Violência contra a mulher no Brasil: um desafio persistente mesmo após duas décadas da Lei Maria da Penha

Uma nova pesquisa revela que mais da metade das mulheres brasileiras (54%) que tiveram relacionamentos com homens relataram ter sido vítimas de algum tipo de violência. Em contrapartida, apenas 11% dos homens que se relacionaram com mulheres admitem ter agredido suas parceiras ou ex-parceiras. Os dados fazem parte de um estudo abrangente realizado pelo Instituto Patrícia Galvão e Instituto Locomotiva, com o apoio da Uber, que busca atualizar a percepção da sociedade sobre a violência doméstica e familiar após 20 anos da promulgação da Lei Maria da Penha.

Nessa pesquisa, foram entrevistadas 1.500 pessoas a partir de 16 anos em todo o Brasil, em abril de 2026. Os resultados são alarmantes: em 2025, a Central de Atendimento à Mulher registrou mais de 1 milhão de atendimentos, um aumento de 45% em relação ao ano anterior, com 155 mil denúncias de violência, o que equivale a 425 casos por dia. Vera Vieira, diretora do Instituto Patrícia Galvão, enfatiza que os números não refletem apenas a persistência da violência física, mas também dos tipos psicológico, sexual e patrimonial no espaço íntimo.

Apesar de a Lei Maria da Penha ser um marco legal importante na proteção das mulheres, as entrevistadas apontam barreiras significativas para formalizar denúncias. A sensação de impunidade é citada por 56% das mulheres, enquanto 39% relatam a lentidão da Justiça como um impedimento. A pesquisa também mostra que 77% das mulheres acreditam que muitos homens não reconhecem comportamentos violentos, e 82% consideram que eles se omitem em situações de agressão.

Quando se trata de intervenções, as mulheres tendem a acionar a polícia, enquanto os homens preferem tomar atitudes diretas, com ou sem uso da força. A Delegacia da Mulher é amplamente conhecida, mencionada por três em cada quatro mulheres participantes do estudo.

Embora a Lei Maria da Penha tenha promovido avanços significativos na conscientização e proteção das mulheres, os dados sugerem que a violência de gênero continua a ser um problema estrutural no Brasil. Sete em cada dez mulheres sentem que a lei impacta positivamente suas vidas, mas 82% afirmam que, sozinha, ela não é suficiente para solucionar o problema da violência doméstica de maneira eficaz.

A pesquisa também destaca que enquanto 88% das mulheres conhecem a previsão legal para violência física, apenas 46% estão cientes da inclusão da violência patrimonial como uma forma reconhecida na legislação. Embora as medidas protetivas de urgência sejam conhecidas por 83%, o entendimento sobre a proteção patrimonial alcança apenas 38%.

Por fim, mesmo com as conquistas legais, ainda existe uma naturalização de comportamentos violentos que preocupam especialistas. O estudo revela que a violência psicológica é a forma mais comum enfrentada pelas mulheres, evidenciando a necessidade de uma mudança cultural para combater não apenas a violência física, mas todas as suas manifestações.

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