DIREITOS HUMANOS – Estudo inédito revela 85 interrupções no transporte público de Salvador por questões de segurança pública em apenas um ano.

Nos últimos doze meses, a cidade de Salvador enfrentou uma série de interrupções no transporte público, totalizando pelo menos 85 episódios relacionados a conflitos ligados à segurança pública. Esses dados foram revelados por um estudo inédito intitulado “Catraca Racial: o impacto da segurança pública na mobilidade urbana da capital da Bahia”, divulgado nesta segunda-feira (11).

De acordo com a pesquisa, as interrupções afetaram 30 bairros da capital baiana, em sua maioria habitados por pessoas negras. Ao todo, foram registradas 316 horas de interrupção no transporte público em 15 episódios mapeados, o que equivale a treze dias sem acesso à mobilidade urbana.

O estudo foi realizado em parceria entre a Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre Drogas, o Observatório da Mobilidade de Salvador e o Instituto Fogo Cruzado. A análise abrangeu o período de 4 de agosto de 2023 a 15 de agosto de 2024, utilizando registros disponibilizados pela Prefeitura de Salvador, por meio da Lei de Acesso à Informação, e pelo Sindicato dos Rodoviários da Bahia.

Para o historiador e diretor-executivo da Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre Drogas, Dudu Ribeiro, o levantamento evidencia o impacto da segurança pública na mobilidade em função de operações ligadas a ataques ou conflitos entre grupos armados, incluindo ações policiais.

Dudu Ribeiro destaca que a população negra e periférica de Salvador enfrenta dificuldades tanto para permanecer em suas comunidades, devido aos conflitos violentos, quanto para acessar direitos em outras áreas da cidade. A falta de mobilidade urbana compromete o acesso à saúde, educação, geração de renda e lazer, criando uma espécie de “catraca racial” invisível que limita os deslocamentos na cidade.

O bairro mais afetado pelas interrupções foi Mussurunga, com 14 dias de interrupção total ou parcial no serviço de ônibus ao longo do período analisado. Esses dados chamam atenção para a situação crítica enfrentada por diversas regiões da cidade, como Fazenda Coutos, Valéria, Pernambués, Águas Claras, Nordeste de Amaralina, Engenheiro Velho da Federação e outros.

O estudo também destaca os impactos dessas interrupções na população, como ausências no emprego e dificuldades para obter serviços agendados. O doutor em urbanismo e membro do Observatório da Mobilidade de Salvador, Daniel Caribé, ressalta que a questão da segurança pública se tornou um problema de mobilidade urbana na cidade, obrigando as pessoas a buscar alternativas para se deslocar em meio a conflitos armados.

Diante desse cenário, a coordenadora do Instituto Fogo Cruzado na Bahia, Tailane Muniz, ressalta a importância dos dados do levantamento para alertar as autoridades sobre a situação e garantir o direito à mobilidade urbana da população mais vulnerável da cidade.

Os pesquisadores questionaram a Prefeitura de Salvador sobre a quantidade de interrupções ocorridas durante operações policiais, mas não obtiveram resposta. No entanto, a prefeitura informou sobre uma iniciativa em fase de elaboração para garantir a continuidade dos serviços de transporte público em áreas afetadas pela violência urbana.

Em resumo, o estudo destaca a urgência de medidas para garantir a segurança e a mobilidade da população de Salvador, especialmente das comunidades mais vulneráveis, que enfrentam diariamente os impactos dos conflitos armados em seus deslocamentos pela cidade.

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