Carla Akotirene, que concentra suas pesquisas nas intersecções entre racismo e sexismo, enfatizou que a violência racial se manifesta de maneira estrutural e institucional, transcende os casos que frequentemente aparecem nas redes sociais. “A militância deve ir além do que é filmado e compartilhado. Em locais como prisões e unidades de saúde, o racismo e o sexismo ocorrem diariamente, mas não existem registros visíveis ou facilmente acessíveis”, destacou. A pesquisadora, que conduziu uma investigação etnográfica em uma penitenciária feminina na Bahia, alertou sobre a gravidade das condições enfrentadas por mulheres negras no sistema penal. “Na cadeia, não apenas a privação de liberdade se torna uma forma de racismo, mas também as regras e o tratamento aplicados a essas mulheres”, afirmou.
Akotirene trouxe à tona questões alarmantes sobre a violência institucional e a relação entre o Estado e as pessoas encarceradas. Ela disse que “uma mulher que já foi vitimada por violência não pode gritar; ela se encontra sob o domínio de um agressor que é, em última instância, o próprio Estado”. Esse contexto revela como as mulheres negras continuam sendo marginalizadas, perpetuando um ciclo de opressão que remonta à escravidão e à subserviência.
O Congresso, que se estenderá até o dia 31 de outubro, é uma plataforma destinada a debater projetos de pesquisa e iniciativas que visem aprofundar estudos sobre relações étnico-raciais no Brasil. Os organizadores destacam a importância do evento para fortalecer a luta antirracista e promover uma reflexão crítica sobre as realidades sociais do país. Akotirene se posiciona como uma voz forte nessa busca por visibilidade e justiça, lembrando que sua própria trajetória acadêmica é reflexo da luta histórica do movimento negro por inclusão e igualdade nas universidades.
Ela questiona o papel do sistema de justiça, chamando atenção para como, desde o policial até o magistrado, existem esforços sistemáticos para criminalizar ainda mais indivíduos pardos e pretos. “A polícia adentra nossas comunidades e frequentemente as pessoas são forçadas a assumir responsabilidades por crimes que não cometeram, muitas vezes endurecendo o ciclo de tortura e opressão”, continuou. Essas observações refletem um panorama alarmante que requer ser discutido e, acima de tudo, combatido com urgência.
