Essas informações são parte do estudo intitulado “Pele Alvo – Entre Racismo e Letalidade, o Amanhã”, cuja sétima edição foi divulgada recentemente pela Rede de Observatórios, do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania. O relatório abrange dados coletados das secretarias de Segurança Pública de estados como Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo.
Outro aspecto alarmante do relatório é a idade das vítimas: 64,8% dos casos (aproximadamente 2.804 mortes) correspondiam a jovens de até 29 anos, incluindo 310 crianças e adolescentes. Isso demonstra uma clara tendência em direcionar as ações policiais a uma parcela vulnerável da população, suscitando críticas sobre a transformação de jovens de favelas e periferias em alvos de operações letais, aspecto que, segundo especialistas, compromete o futuro dessas comunidades.
Os dados também revelam que os negros têm quatro vezes mais chances de serem mortos pela polícia em relação aos brancos, e essa discrepância é acentuada em estados como Pernambuco, onde a probabilidade é de 11 vezes, e no Rio de Janeiro, onde chega a seis. Mesmo com a evolução das dinâmicas de violência no Brasil, os grupos mais afetados permanecem inalterados – homens, jovens e negros.
A pesquisa aponta ainda a crescente articulação de facções criminosas, como o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital, principalmente nas regiões Norte e Nordeste, um fator que tem alimentado as estatísticas de violência. No recorte regional, o Ceará, Maranhão, Pará e São Paulo destacam-se com os maiores índices de letalidade policial desde 2019.
No Maranhão, a letalidade policial teve um aumento recorde de 86,8% em comparação ao ano anterior, enquanto o Ceará, embora tenha mostrado leve melhoria nos números, ainda enfrenta desafios em registrar dados raciais adequados sobre as vítimas. Em contrapartida, o Piauí foi o único estado a apresentar uma redução significativa na letalidade, o que pode ser atribuído à pressão social exercida por movimentos organizados e outras instâncias de controle social.
No tocante ao Rio de Janeiro, que observou um aumento de 13,8% nas mortes, um ponto controverso foi a terminologia usada para classificar as vítimas, como “narcoterroristas”, o que reflete, segundo os pesquisadores, uma normalização da violência extrema e uma falha na construção de políticas públicas eficazes.
Por fim, enquanto as secretarias de Segurança Pública dos estados consultados não se manifestaram amplamente, algumas, como a de Pernambuco, insistiram que suas operações são guiadas por protocolos que visam preservar vidas, embora os dados indiquem uma realidade contrária. Essa dicotomia entre a narrativa oficial e a dura estatística evidencia a necessidade urgente de um debate profundo sobre a atual conjuntura da segurança pública no Brasil.
