Seminário Discute a Autonomia de Jovens com Autismo e a Necessidade de Políticas Públicas
Em um seminário realizado na Câmara dos Deputados, especialistas e familiares de pessoas com autismo manifestaram a urgência de implementar políticas públicas que assegurem suporte contínuo a essa população ao longo de suas vidas. A reunião destacou a preocupação com a falta de assistência que muitas vezes ocorre quando os jovens com autismo atingem a adolescência, uma fase em que as necessidades de apoio se tornam ainda mais evidentes.
Dulcelene Cidreira, mãe de um adolescente autista, expressou sua frustração com a descontinuidade dos serviços oferecidos pelo Estado. Segundo ela, atualmente, o suporte tende a se encerrar quando as crianças completam 12 anos, o que gera um vazio no atendimento a essa faixa etária. “Meu filho tem 14 anos. Ele é visto pela sociedade como um homem, mas sua mentalidade é de criança. Hoje, suas crises são percebidas como ameaças, não como o que realmente são. Precisamos urgentemente de políticas para adolescentes autistas e de serviços contínuos”, reivindicou.
Flavia Poppe, fundadora da Rede Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, abordou a crise silenciosa que muitos jovens autistas enfrentam após a fase escolar. “Quando a escola termina, percebemos que não há nada à frente. O futuro se fecha para esses jovens, reforçando uma dependência que deve ser rompida”, afirmou. A ativista fez questão de frisar a necessidade de adaptar as políticas públicas para garantir uma transição suave para a vida adulta.
Entre os principais obstáculos para a autonomia de pessoas neurodivergentes, Poppe ressaltou a carência de moradias adequadas. Atualmente, o Sistema Único de Assistência Social (Suas) dispõe de apenas 275 residências, para um total de 2,8 milhões de pessoas com transtornos mentais, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O deputado Rodrigo Rollemberg, presidente da Comissão de Defesa dos Direitos das Pessoas com Deficiência, anunciou que pretende sugerir ao governo a criação de um grupo de trabalho dedicado a estudar políticas públicas voltadas para adolescentes e jovens com autismo. Rollemberg também anunciou que irá supervisionar a implementação das iniciativas relacionadas ao programa “Viver sem Limites”, que visa promover a inclusão.
Além disso, a questão do diagnóstico precoce foi levantada como uma dificuldade crítica. Flavia Poppe mencionou que a avaliação biopsicossocial, essencial para o diagnóstico, precisa ser melhorada, já que muitas pessoas ainda não têm acesso a serviços adequados em razão da burocracia. A advogada Juliana Rodrigues apontou que a Justiça do Distrito Federal aceita apenas laudos de médicos do sistema público de saúde, cuja disponibilidade é escassa, resultando em filas que podem ultrapassar dois anos, o que impede a obtenção de um diagnóstico necessário para acesso a atendimentos.
Este seminário evidenciou a urgência de um compromisso coletivo para promover a independência e dignidade das pessoas autistas, garantindo que não sejam deixadas à margem quando mais precisam de apoio.





