CAMARA DOS DEPUTADOS – Jumentos em Risco de Extinção: Comissão da Câmara Debate Projeto que Proíbe Abate e Preserva Espécies Nativas da Caatinga.

Na última quinta-feira, a Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Câmara dos Deputados sediou uma audiência crucial sobre a drástica redução da população de jumentos no Brasil, que caiu de 1,3 milhão no final da década de 1990 para apenas 78 mil em 2025. Especialistas e ativistas ambientais levantaram alarmes sobre o risco iminente de extinção da espécie até 2030, um cenário resultado, em grande parte, do abate de jumentos para o comércio de sua carne e pele.

Durante a audiência, foi solicitado a aprovação imediata do Projeto de Lei 2387/22, que visa proibir o abate desses animais para consumo e comércio. A redução acentuada no número de jumentos está intimamente relacionada ao uso da pele do animal, que é explorada como fonte de colágeno na produção do ejiao, um remédio tradicional da medicina chinesa. Além disso, a carne de jumento se tornou um subproduto para ração animal, aumentando ainda mais a pressão sobre a população da espécie.

José Roberto Lima, presidente da Comissão de Medicina Veterinária Legal da Bahia, destacou que essa prática está sendo alimentada por um fluxo internacional, muitas vezes ilegal. Segundo ele, jumentos são capturados em várias partes do Nordeste do Brasil, levados para fazendas e, em seguida, enviados a frigoríficos para abate, sem a devida rastreabilidade ou histórico de saúde. Além dos riscos éticos, essa prática tem consequências diretas para a saúde pública, já que muitos dos animais são portadores de doenças como anemia infecciosa equina e mormo.

O diretor das Américas da The Donkey Sanctuary, Eduardo Santurtun, chamou a atenção para a recente proibição do abate de jumentos em 55 países africanos e incentivou o Brasil a assumir a liderança na proteção da espécie na América Latina. Em resposta, o deputado Célio Studart, que organizou a audiência, prometeu pressionar pela votação do projeto de lei, que já recebeu aprovação nas Comissões de Agricultura e Meio Ambiente, mas ainda está pendente na Comissão de Constituição e Justiça.

Além das questões de conservação, a bióloga Patrícia Tatemoto, coordenadora de campanhas na The Donkey Sanctuary, enfatizou o papel vital dos jumentos na preservação de ecossistemas nativos, especialmente na Caatinga. Ela explicou que, embora os jumentos não sejam adequados para a criação intensiva, podem ser usados de maneira sustentável na agricultura familiar e em projetos de restauração ecológica. Os jumentos ajudam a controlar espécies invasoras, promovem a dispersão de sementes e são fundamentais para manter o equilíbrio do ecossistema.

A crescente demanda por produtos derivados de jumentos, especialmente para a produção do ejiao, acompanhou um aumento significativo no mercado, saltando de US$ 3,8 bilhões em 2015 para US$ 7,2 bilhões em 2022. Com esse cenário emergente, especialistas já discutem alternativas mais sustentáveis e éticas, utilizando colágeno bioecológico, que poderiam substituir a exploração indiscriminada desses animais.

Os números alarmantes e a urgência da situação requerem atenção imediata e ação decisiva para preservar não apenas os jumentos, mas também o papel que eles desempenham nos ecossistemas brasileiros.

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