A Necessidade de uma Petrobras para Terras Raras no Brasil
A Câmara dos Deputados está prestes a votar o Projeto de Lei 2780/24, que visa regulamentar a exploração de terras raras no Brasil e criar a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE). Este projeto, no entanto, não inclui a proposta de criação da Terrabras, uma estatal que seria dedicada à exploração desses recursos, uma ideia defendida pela base do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O governo decidiu não incluir a proposta para não arriscar a aprovação do marco regulatório elaborado pelo deputado Arnaldo Jardim, autor do projeto.
O presidente da Câmara, Hugo Motta, destaca que o PL foi elaborado em conjunto com parlamentares, setores da mineração e o governo, representando um avanço significativo para que o Brasil aproveite ao máximo suas reservas de minerais críticos. Essa discussão ocorre em um contexto delicado, marcado pela recente venda da mineradora Serra Verde para a empresa americana USA Rare Earth, que levantou preocupações sobre a futura exploração desses recursos.
A exploração de terras raras, segundo especialista Bruno Lima Rocha, deveria seguir o modelo de desenvolvimento do petróleo na década de 1950, com a criação de uma estatal que controlasse essa área. Ele sugere que a Terrabras deveria realizar a exploração mineral e limitar a participação de empresas estrangeiras a no máximo 20%. Outra ideia é implementar um regime de partilha semelhante ao do pré-sal, onde o Brasil garantiria o controle sobre o conhecimento geológico, essencial para a exploração eficaz.
Rocha critica propostas que envolvem o oferecimento de recursos estratégicos ao exterior, especialmente aos EUA, que ele vê como uma postura subserviente. Em vez disso, ele argumenta que o Brasil deve exigir contrapartidas, como a instalação de indústrias locais. O analista enfatiza que o país não deve se tornar um mero fornecedor de matérias-primas, mas se fortalecer como um jogador estratégico no cenário global.
A doutora em relações internacionais Fernanda Brandão complementa essa visão afirmando que o PL 2780/24 tem como um de seus pontos positivos o incentivo à adição de valor em solo nacional. As empresas que puderem refinar os minerais em território brasileiro terão benefícios fiscais, o que poderá trazer novos empregos e indústrias. Contudo, ela alerta sobre a fragilidade das disposições de proteção ambiental que acompanham a proposta, destacando a importância de um controle rigoroso na exploração para evitar danos ao meio ambiente.
Brandão também destaca que o Brasil possui cerca de 20% das reservas mundiais de minerais críticos, posicionando o país como um jogador importante na economia global. Assim, garantir o controle sobre esses recursos não implica apenas em exploração econômica, mas também em um aumento da influência política do Brasil.
Embora a criação de uma estatal como a Terrabras possa ser um caminho viável, especialistas alertam que outras formas de regulação e controle sobre esses minerais são necessárias. A forma como o Brasil lida com suas riquezas naturais nas próximas décadas determinará não apenas a sua autonomia econômica, mas também seu status político em uma arena global cada vez mais competitiva.
