Pessoas ouvidas durante a audiência afirmaram que as políticas de adaptação climática realizadas no Brasil são segregacionistas, pois não incluem a participação dos povos indígenas nas tomadas de decisão. Carlos Bocuhy, presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam), enfatizou que é necessário dar voz às populações indígenas, já que são elas que conhecem as necessidades e problemas que enfrentam, como a diminuição na quantidade de peixes e o aumento do calor.
Bocuhy também defendeu a criação de comitês regionais, que contem com a participação das comunidades afetadas, do Ministério Público e de outros atores, para tomar decisões sobre a aplicação de recursos. Ele argumenta que essa medida evitaria o mau uso do dinheiro destinado à política ambiental, que muitas vezes é empregado em festas e outros eventos sem fiscalização adequada.
Outro ponto discutido durante a audiência foi a falta de rastreabilidade na produção de commodities no Brasil. O procurador da República Daniel Azeredo ressaltou a importância de ter um sistema que garanta a identificação completa das commodities desde a sua produção, para evitar a produção ilegal em áreas indígenas e de conservação. Azeredo destacou que a tecnologia de rastreabilidade já é amplamente utilizada pelos produtores da União Europeia.
Além disso, foram mencionadas as recentes ondas de calor, mesmo durante o inverno, como uma evidência dos efeitos nocivos das mudanças climáticas causadas pelo modelo atual de desenvolvimento econômico. Luciana Vanni Gatti, pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, explicou que esses eventos extremos ocorrem com maior intensidade em áreas desmatadas ou com plantações que contribuem para o ressecamento do solo. Ela ressaltou a importância da participação dos povos tradicionais nas decisões sobre o território, já que são responsáveis pela “fábrica de chuva” do país.
Apesar dos desafios enfrentados, Suliete Baré, coordenadora de Enfrentamento à Crise Climática do Ministério dos Povos Indígenas, acredita que o atual governo está mais preparado para impulsionar a agenda ambiental. Ela afirmou que, além do conhecimento tradicional, os povos tradicionais também possuem conhecimento técnico e político para defender seus direitos.
A deputada Professora Luciene, do Psol-SP, informou que todas as propostas e intervenções feitas durante a audiência serão encaminhadas ao Ministério do Meio Ambiente e outros responsáveis pelo tema. Ela ressaltou que a questão ambiental deve estar no centro do debate sobre a reconstrução do país.
Durante a audiência, também foram mencionados dados preocupantes, como os incêndios no Pantanal, onde 200 mil hectares já foram consumidos pelo fogo neste ano, e a existência de 480 focos de calor atualmente nesse bioma. Eriki Terena, indígena e biólogo, destacou que a crise climática afeta diariamente a vida dos povos indígenas e que é fundamental não esquecer dessa realidade.





