Argentina desativa reator nuclear em finalização e prioriza investimento privado, enquanto especialistas alertam sobre riscos de desperdício de recursos e impactos na energia nuclear.

A Argentina enfrenta uma reviravolta significativa em sua política de energia nuclear, com o governo atual decidindo paralisar o projeto CAREM, um reator modular que estava 85% concluído e custou cerca de US$ 600 milhões em investimento. Esta mudança ocorreu em meio a um novo anúncio de um projeto de reator diferente, orçado em US$ 1,2 bilhão, a ser desenvolvido em parceria com capital privado internacional, predominante dos Estados Unidos. Esse cenário revela um desvio brusco na estratégia nuclear do país, que tem sido criticado por especialistas.

O CAREM, que recebeu um investimento considerável ao longo dos anos, foi congelado nesta última semana, enquanto a empresa Meitner Energy, composta por investidores americanos, apresentou um plano para construir o reator ACR-300, um pequeno reator modular de 300 megawatts, que seria instalado no complexo nuclear de Atucha, em Buenos Aires. O ministro da Economia, Luis Caputo, afirmou que o projeto representa uma inovação, sendo o “primeiro do gênero no mundo”.

Entretanto, essa transição não ocorre em um vácuo. A Comissão Nacional de Energia Atômica (CNEA), responsável pelo setor nuclear argentino, está enfrentando sua maior crise orçamentária em décadas. Para 2026, seu orçamento será drasticamente reduzido, comprometendo a continuidade de seus projetos e levando à demissão de mais de 60 especialistas, incluindo operadores-chave. Os cortes nos salários e a falta de renovação dos contratos levantam preocupações sobre a capacidade da CNEA de conduzir pesquisas e manter sua infraestrutura.

Diversos especialistas expressaram seu descontentamento com a decisão do governo. Adriana Serquis, ex-presidente da CNEA, criticou duramente a paralisação do CAREM, destacando que o investimento em conhecimento e tecnologia está sendo descartado. Para ela, o que está ocorrendo é uma perda irreparável para o país, que poderia ter liderado o desenvolvimento nuclear na região.

Além disso, Rodolfo Kempf, físico nuclear, mencionou que as demissões visam desmantelar o sistema nuclear argentino, abrindo espaço para que o capital estrangeiro domine o setor. Ele defende que o ajuste fiscal não justifica a perda de expertise acumulada ao longo dos anos, uma vez que o sistema nuclear argentino não só é superavitário, mas também autossuficiente na produção de radioisótopos.

Essa mudança de rumo levanta questões sérias sobre o futuro da capacidade nuclear da Argentina e seu papel no contexto global. O desinvestimento em pesquisa científica e a migração de talentos para o setor privado podem minar não apenas a autonomia do país em tecnologia nuclear, mas também suas perspectivas de crescimento e desenvolvimento econômico a longo prazo. O que restará do ambicioso projeto CAREM e da história nuclear da Argentina está agora em uma encruzilhada crítica.

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