O pesquisador investiga o que ele chama de “plataformização musical”, um fenômeno onde a curadoria de conteúdo é ditada não mais por critérios artísticos, mas por interesses comerciais. Isso gera um ambiente em que os artistas independentes enfrentam dificuldades para vingar. Muitos preferem não disponibilizar suas obras nessas plataformas, pois o retorno financeiro é frequentemente irrisório. “O que pagam para os artistas é uma piada”, destaca Pimentel, refletindo a frustração de muitos criadores em um cenário que deveria, teoricamente, favorecer a diversidade musical.
Além disso, Pimentel constatou que o consumo atual é caracterizado pela brevidade: em média, os usuários ouvem uma música por apenas cinco segundos antes de utilizarem a função de pular. Esse comportamento acelerado tem forçado os músicos a adotar novas estratégias de composição, com um foco excessivo em atender as expectativas imediatas do público. Esse fenômeno é exemplificado no gênero sertanejo, onde artistas moldam suas letras conforme fórmulas reconhecidas que garantem a atenção do ouvinte nos primeiros momentos.
Pimentel também abordou o conceito de “enshittification”, onde serviços que inicialmente eram amigáveis ao usuário se degradam ao longo do tempo, levando-os a pagar por experiências mais satisfatórias. Essa prática incentiva a assinatura de serviços premium ao limitar as funcionalidades gratuitas. Dessa forma, os ouvintes se veem compelidos a pagar para escapar da frustração trazida por anúncios e limitações.
Em última análise, a digitalização do consumo de música, em vez de promover a diversidade e o acesso a novos talentos, frequentemente resulta na precarização do trabalho dos artistas e na limitação das opções disponíveis ao público. A indústria musical, por meio dessas plataformas dominantes, acaba por restringir a autonomia do ouvinte na descoberta de novas obras, transformando a experiência musical em um produto cada vez mais padronizado e menos autêntico.
