Zelle e Pix: A Comparação entre Sistemas de Pagamento que Está Gerando Controvérsia nos EUA e no Brasil

O Zelle, um sistema norte-americano de pagamentos instantâneos, tem se tornado um ponto de comparação com o notório Pix, que revolucionou as transferências de dinheiro no Brasil. O ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro fez essa analogia durante uma entrevista a uma rádio, sugerindo que ambos os sistemas possuem características semelhantes. No entanto, uma análise mais aprofundada revela que há diferenças significativas que merecem destaque.

Recentemente, o Pix voltou a ser objeto de polêmica após o Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) fazer acusações sérias sobre o sistema brasileiro. O órgão acusou o Banco Central do Brasil (BC) de favorecer o Pix em detrimento de empresas de serviços de pagamento americanas, como operadoras de cartão de crédito. Essa crítica se relaciona também à suposta dualidade de funções do BC, que atua tanto como regulador quanto como operador do sistema de transferências.

Uma comparação básica entre os dois serviços mostra que, enquanto ambos os sistemas têm limitações de operação no exterior e se restringem a transações entre contas nacionais, o Pix destaca-se pela sua ampla integração. Ele opera em qualquer banco ou instituição financeira autorizada pelo BC, abrangendo um espectro muito maior de usuários. Em contrapartida, o Zelle é limitado a apenas 2,4 mil instituições participantes, um número significativamente menor.

Em termos de operação, o Pix é gerido publicamente pelo Banco Central desde sua implementação em 2020. O Zelle, por outro lado, é administrado por um consórcio de bancos privados, o Early Warning Services, formado por grandes nomes do setor financeiro americano, como Bank Of America e JPMorgan. Essa diferenciação evidencia não apenas a estrutura de cada sistema, mas também reflete a transparência e o controle público do sistema brasileiro.

Em relação às taxas, enquanto o Zelle promete, em teoria, que não há taxas para enviar ou receber dinheiro, recomenda-se sempre consultar a instituição bancária para verificar possíveis cobranças. O tempo de processamento das transações é outro aspecto que os distingue: o Pix é projetado para ser instantâneo, enquanto o Zelle pode levar minutos para processar transferências.

Além disso, as aplicações práticas de cada sistema são distintas. O Zelle é limitado a uso pessoal e pequenas empresas, enquanto o Pix é amplamente utilizado para o pagamento de impostos e contribuições ao Tesouro Nacional, além de permitir cobranças de faturas. O BC publica mensalmente dados sobre o volume de transações do Pix, demonstrando sua popularidade — em maio, 170,8 milhões de brasileiros utilizaram o sistema, movimentando quase 3 trilhões de reais.

Por fim, as políticas de cancelamento também diferem. O Brasil possui um Mecanismo Especial de Devolução (MED), que permite que vítimas de fraude procurem reaver seus valores, enquanto o Zelle não oferece garantias semelhantes para cancelamento de transações, dificultando a recuperação de dinheiro em casos de erro, uma vez que, se o destinatário tiver conta cadastrada, não há como reverter a transação.

Em suma, embora o Zelle e o Pix compartilhem a característica de serem sistemas de pagamento instantâneo, suas estrutura, operação e aplicação prática divergem consideravelmente, refletindo não apenas diferenças no mercado financeiro, mas também a forma como cada país aborda a inovação na área de pagamentos.

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