Um amor que a tragédia da Chape não apagou

O ano de 2017 era cheio de planos para o jovem casal de repórteres Isabella Fernandez e Giovane Klein, gaúchos radicados em Chapecó, no Oeste catarinense. Comprar um tapete para a sala do apartamento, viajar mesmo precisando economizar, fazer mais uma tatuagem. E também escrever um livro.
A história de amor de cinco anos foi interrompida na madrugada de 29 de novembro de 2016. Giovane, de 28 anos, estava com outros 20 profissionais de imprensa no voo que levava a delegação da Chapecoense para disputar a final da Copa Sul-Americana na Colômbia. Mas Isabella preferiu encarar o desaparecimento repentino do companheiro como um ponto e vírgula, como gosta de dizer, atesta o G1.
No dia seguinte à notícia, ainda em choque, decidiu escrever uma carta para Gio, como o chamava. Como se ele estivesse ainda na viagem que nunca terminou, Isabella relatava a comoção mundial, o carinho das pessoas, a casa cheia de amigos, o livro deixado na mesa de cabeceira, a cachorra do casal procurando por ele pela casa. Foi a primeira das cartas que, agora, acabaram se transformando no tão sonhado livro.
‘Faz teu mate e senta aí pra ler’
“Queria te contar como tá tudo por aqui nessas últimas horas, e vou pegar emprestada a tua invejável sensibilidade pra te contar da forma mais serena possível, então onde estiver, faz teu mate e senta aí pra ler”, começava o primeiro texto que ela postou em sua rede social (leia um trecho do livro ao fim da reportagem).
Nas semanas seguintes, viriam mais dos textos em tom de conversa que, se relembravam o passado do casal que se conheceu na época da faculdade, em Pelotas, também vislumbravam o futuro. Foram os textos e o apoio recebido de gente que nem conhecia que ajudaram Isabella, um mês depois da tragédia que matou 71 pessoas, a pisar novamente na emissora onde o namorado era também seu grande parceiro de trabalho.
Meses antes, eles haviam feito juntos uma série de reportagens sobre vida saudável, em que os dois eram, ao mesmo tempo, repórteres e personagens que se apoiavam mutuamente. Juntos, haviam perdido quase 40 quilos. Era sobre essa experiência que Isabella pretendia escrever em 2017. Já Giovane sonhava com o livro que escreveria sobre os bastidores da Chapecoense quando entrou no avião da LaMia para cobrir o jogo contra o Nacional de Medellín.
“Escrever é a minha terapia. E ver que essa escrita se tornou a concretização de um sonho, nem eu sei descrever o que isso significa”
“Acho que é um sentimento de gratidão eterno”, diz Isabella, que lança o livro às vésperas do Dia dos Namorados, neste sábado (10), em Chapecó.
Um certo Dia dos Namorados
A mesma data que provoca sentimentos difíceis de expressar também faz Isabella rir como se tivesse sido ontem o Dia dos Namorados de 2013, quando ela se recorda de Giovane ter insistido para que fizessem um programa caseiro, em vez de saírem para jantar fora.
“Ele disse, ‘amor, sair pra jantar é muito clichê, vou fazer uma janta pra gente’. Eu: ‘ai, que legal”, achei aquilo super-romântico. Mas toda essa história era porque tinha jogo do Grêmio na TV! Claro, ele preparou tudo cedo. Foi superengraçado, e eu nem me importei. A gente se dava superbem e foi legal mesmo assim”, lembra Isabella.
‘Sentia necessidade de dividir’
O livro de 122 páginas tem 22 textos – oito já publicados na internet, os demais inéditos. “São crônicas em forma de cartas, que contam coisas do dia a dia, após a tragédia, que eu sentia necessidade de dividir com o Giovane, assim como eu dividia quando a gente estava junto antes do acidente. Para contextualizar, em muitos casos, eu volto e relembro fatos que aconteceram enquanto ele estava vivo. Mas a maior parte delas é contando para ele o que estava acontecendo aqui”.
A iniciativa de transformar os textos em livro partiu da escritora Eliziane Nicolao, que apresentou Isabella à editora. “Achei linda a história de amor e achei que as pessoas precisavam conhecer o amor que persistia e que levava uma mensagem tão linda para as pessoas”, diz Eliziane.
“Eu já tinha o livro e nem sabia, desde a primeira carta, porque elas também ajudaram muitas outras pessoas. Foram muitas mulheres que ficaram viúvas após essa tragédia. Além disso, o livro tem também o sentido de outras perdas que as pessoas têm. Com isso, elas podem se colocar na minha situação”, conta Isabella.
“Era uma coisa que eles planejavam”, diz a mãe de Giovane, Ilsa Klein. “Era um amor muito lindo que foi cortado. Mas eu acho que lá em cima ele está gostando, com certeza”.
Final com ponto e vírgula
Isabela continua escrevendo cartas para Giovane. “Eu continuo escrevendo sobre coisas que acontecem no cotidiano. No que isso vai dar, se vai ser outro livro ou não, eu não sei”, diz Isabella, que realizou outro plano que tinha com Giovane: a nova tatuagem, um ponto e vírgula estilizado com um coração.
“Além de ser um símbolo da língua portuguesa, que é algo que eu gosto muito, significa a pausa de uma história, e não o fim. E o livro termina com um ponto e vírgula. Então, quem sabe?”
Veja um trecho do livro
“É, meu amor, não podemos ser injustos com 2016! Não dá! Começamos o ano mais unidos do que nunca, fazendo aquilo que mais gostávamos, contando histórias. (…) Em 2016 nós emagrecemos juntos quase 40kg e nunca nos privamos de fazer aquele churrasquinho de toda semana com os amigos, ou só nós dois. Em 2016 demos um dos passos mais importantes nas nossas vidas, decidimos comprar um apartamento. Essa decisão não foi só econômica, de investimento…mas, acima de tudo de consolidação da nossa relação e da certeza de um futuro juntos. Em 2016 nós passeamos com a Moah, nos lambuzamos com sorvete diet, vimos muitos espetáculos do futebol e do cinema. Em 2016 nós “invadimos” milhares de casas e nos apresentamos para 1.000 pessoas no teatro municipal. Em 2016 abraçamos, beijamos, dissemos muiitos “te amo”…nos despedimos várias vezes, e nos reencontramos tantas outras. Em 2016 discutimos pautas, planos…sonhos! Em 2016 nós cantamos muito!! Em 2016 nós dançamos conforme a música. Em momentos difíceis rebolamos pra que tudo desse certo… e como sempre, em todos os segundos, nos divertimos MUITO! Não entendo por que esse ano tão cheio de coisa boa pra nós acabou de forma tão dura, amor! Pra 2017 nossos planos eram tirar férias, visitar a família, os amigos, afilhados. Em 2017 planejavámos escrever um livro. O teu sobre a Chape – já tinha até conversado com o presidente. O meu sobre o “Simplesmente Saudável”, ou sobre nós, crônicas das milhões de histórias do nosso cotidiano que renderam bons textos. Em 2017 queríamos viajar, mas ao mesmo tempo economizar. Em 2017 iríamos comprar um tapete pra sala agora que a Moah ficou mais comportada. Em 2017 pensávamos em fazer mais uma tatuagem cada um, a tua sobre futebol, claro! E a minha sempre indefinida. Aah eram tantos planos!! Só peço que 2017 nos fortaleça e nos ilumine. Já que o show tem que continuar, mesmo sem meu eterno par, minha única meta pra 2017 é: seguir!
10/06/2017





