Revogação do Título Honorífico: UFRJ emitiu decisão histórica
Em um movimento marcante, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) decidiu, por unanimidade, revogar o título de Doutor Honoris Causa concedido ao diplomata americano Lincoln Gordon. Este embaixador, que ocupou uma posição de destaque nos Estados Unidos entre 1961 e 1966, ficou amplamente associado ao golpe militar que derrubou o presidente brasileiro João Goulart em 1964.
Gordon, que serviu como autoridade máxima dos EUA no Brasil durante um período conturbado da história, teve seu envolvimento em articulações para o golpe revelado apenas em 1977. Isso ocorreu quando o jornalista Marcos Sá Correa teve acesso a documentos anteriormente classificados, revelando a operação conhecida como “Brother Sam”. Essa operação indicava que as forças militares americanas estavam em prontidão para apoiar o golpe, com tropas deslocadas para o Atlântico Sul, embora, finalmente, não tenham sido necessárias no território brasileiro.
A revogação do título foi justificada pelo Sindicato dos Trabalhadores em Educação da UFRJ, que apresentou um parecer da relatora da Comissão de Ensino e Títulos, Gilda Alvarenga. Ela afirmou que a manutenção do honoris causa se mostrava incompatível com os princípios constitucionais e institucionais da universidade, além de contradizer os valores de justiça e defesa dos direitos humanos que a UFRJ prega.
A ditadura militar que se estabeleceu no Brasil após o golpe durou por 21 anos, um período marcado por repressão, censura e violação de direitos humanos. Documentos da Comissão Nacional da Verdade (CNV) apontam que, durante esse período, 434 indivíduos foram mortos ou desapareceram por motivos político-ideológicos, com muitos historiadores indicando que o número real pode ser ainda maior. Além disso, milhares de opositores ao regime foram injustamente presos e torturados.
Essa revogação do título de Gordon reflete um esforço da UFRJ em enfrentar seu passado histórico e questionar práticas que vão contra os preceitos democráticos e de respeito à vida humana. O ato também destaca a crescente conscientização da sociedade sobre as práticas de violação dos direitos humanos e a importância de reconhecer e reparar abusos cometidos. Em tempos em que a memória histórica é frequentemente contestada, a decisão da UFRJ é um passo significativo rumo à reavaliação do legado de figuras controversas no contexto da política brasileira.




