Rebecca, que foi aprovada para uma vaga destinada a pessoas negras e pardas no vestibular de 2024, se autodeclara parda, mas sua inscrição foi contestada. A comissão realiza avaliações baseadas em características fenotípicas, como cor da pele e formato do cabelo, para evitar fraudes no uso das cotas. Após a reprovação em todas as etapas de análise, Rebecca recorreu à Justiça e, inicialmente, conseguiu uma liminar que a permitiu se matricular. Venceu também no julgamento de primeira instância e conseguiu manter sua vaga. No entanto, a USP recorreu, e o TJSP decidiu, em segunda instância, reconhecer a legitimidade da decisão da comissão.
A desembargadora Cynthia Thomé, relatora do caso, argumentou que a análise feita pela comissão tinha “fundamentação suficiente” e que a interferência do Judiciário na avaliação de fenótipo seria inapropriada, conforme o princípio da separação dos poderes. Contudo, a decisão não foi unânime; dois desembargadores votaram contra o recurso, um deles afirmando que Rebecca apresentou laudos e documentos que comprovavam suas características fenotípicas.
Rebecca, que relata ter sido vítima de racismo em sua infância e ter enfrentado uma batalha judicial contra uma escola que se negou a matriculá-la devido à sua cor, expressa sua indignação com a decisão. “Estou vivendo dias de muita tensão, com medo de perder minha vaga na universidade e ter que refazer um vestibular extremamente difícil. Isso é uma humilhação”, desabafa.
Atualmente desempregada, a estudante contraiu dívidas para pagar os custos do processo judicial, multiplicando sua angústia. Ela planeja recorrer da decisão do TJSP, levantando questões sobre a transparência dos critérios utilizados pela Comissão de Heteroidentificação da USP. “Os critérios são pouco claros e parecem favorecer certas pessoas. É alarmante pensar que um sistema que deveria incluir, na verdade, exclui”, critica.
A USP não se manifestou sobre o caso, mas as repercussões dessa decisão continuam a suscitar debates sobre as políticas de inclusão e reparação na educação superior.
