Tragédia em Guayaquil: Adolescente ataca chefe de gangue e revela crise social no Equador

O recente ataque armado no aeroporto de Guayaquil, no Equador, realizado por dois adolescentes de apenas 14 e 15 anos, chocou o país. Os jovens, armados e disfarçados com bichos de pelúcia e flores, tinham como alvo Carlos Alberto Suástegui Villanueva, conhecido como “Cachete”, líder da temida organização criminosa Los Águilas. Este episódio levanta questões alarmantes sobre a utilização de menores por grupos criminosos e o estado atual das políticas de segurança e social no país.

Especialistas em criminologia, como Nicolás Díaz Torres, afirmam que a presença de crianças e adolescentes envolvidos em atividades ilícitas é um claro sinal de falha do Estado em implementar medidas preventivas eficazes. De acordo com Díaz, ações voltadas para reduzir a criminalidade não podem se restringir ao endurecimento das penas, que, segundo ele, somente reagem ao crime, sem abordagens que tratem as causas sociais que favorecem este fenômeno. O advogado ressalta que o aumento da criminalidade juvenil evidencia uma falência sistêmica que precisa ser corrigida.

Fernando José Yumi Hurtado, penalista e professor, complementa a análise informando que grupos criminosos estão se especializando em aproveitar a vulnerabilidade dos adolescentes. Eles identificam e recrutam essas crianças, muitas vezes oriundas de contextos precários, para a prática de crimes, oferecendo uma “mão de obra” que apresenta uma exposição penal reduzida em comparação com adultos. Este processo mina a inocência dos jovens e os transforma em instrumentos dos interesses criminosos, ao mesmo tempo em que mantém seus líderes afastados de qualquer responsabilidade legal.

Em um estudo divulgando pelo Observatório Equatoriano do Crime Organizado, 8% de um grupo de 3 mil crianças e jovens entrevistados admitiram fazer parte de gangues, evidenciando que mais da metade conhecia a presença de organizações ilegais em seus locais de moradia. Para lidar com essa realidade, o endurecimento das leis aparece como uma resposta automática, embora críticos como Díaz argumentem que não são medidas preventivas.

A responsabilização dos líderes que recrutam menores é um dos principais desafios, já que o Código Penal equatoriano prevê punições para quem usa qualquer forma de coação para obrigar terceiros a cometer delitos. Contudo, para os especialistas, a eficácia de tais leis depende da ação do Estado em recuperar espaços dominados pelo crime organizado. A Vice-Presidência da República, ciente da gravidade do problema, anunciou em 2025 uma estratégia emergencial para prevenir o recrutamento de crianças por organizações criminosas, enfatizando a educação e a reinserção escolar como fundamentos essenciais no combate à criminalidade juvenil. Com mais de 450 mil crianças fora das escolas, a prioridade deve ser a construção de políticas de educação e sociais robustas, que não só enfrentem o crime, mas abordem suas raízes sociais de maneira integrada e sustentada.

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