A revogação das credenciais de Carvalho ocorreu logo após a libertação de Alexandre Ramagem, um ex-deputado e figura próxima ao clã Bolsonaro, que havia sido preso pelo Serviço de Imigração e Controle de Alfândega dos Estados Unidos (ICE) e é considerado foragido pela Justiça brasileira. Esse embate revela a conivência política entre a ala bolsonarista e a corrente republicana na Casa Branca, o que intensifica a animosidade com o governo Lula à medida que se aproxima o pleito eleitoral.
Roberto Moll Neto, professor de história da América na Universidade Federal Fluminense, analisa que a atitude dos EUA deixa evidente que, apesar de um possível pragmatismo nas relações até as eleições, Washington não considera o governo Lula um aliado. Segundo Moll, essa postura talvez não tenha sido surpresa para os ocupantes do Palácio do Planalto, pois a administração já está ciente de que tais movimentos são esperados e não têm um impacto substancial.
O pesquisador Williams Gonçalves, ligado ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos, acrescenta que o episódio da PF também sinaliza uma tentativa dos EUA de apoiar grupos oposicionistas no Brasil. Para ele, a condução da cooperação policial tende a favorecer interesses norte-americanos em detrimento da autonomia brasileira.
Recentemente, durante uma agenda na Europa, Lula se mostrou mais enérgico em suas críticas a Donald Trump, que, por sua vez, adotou uma postura mais contida, evitando confrontações. Essa cautela pode ser uma estratégia do ex-presidente norte-americano para não agravar as tensões numa fase delicada de sua política externa, especialmente em meio à crise no Irã.
Por fim, a dinâmica da relação entre os dois países reflete um anseio norte-americano por um Brasil que respeite sua influência, evitando que projetos autônomos brasileiros ganhem força. O atual cenário geopolítico, portanto, amplia as complexidades dessa interação, onde o Brasil, um país com vasto potencial de desenvolvimento, se vê na mira de intervenções que visam manter sua subordinação às diretrizes de Washington.
