Historicamente, pessoas sem contracheque ou com o nome negativado enfrentavam enormes dificuldades para obter crédito. As instituições tradicionais evitavam atender a esse público, criando uma brecha que algumas fintechs decidiram explorar. Enquanto essas novas empresas têm buscado oferecer crédito a quem antes estava à margem, os altos custos de operação têm sido um entrave. As fintechs, diferentemente dos grandes bancos, não contam com depósitos à vista de baixo custo para captar recursos, dependendo de outras fontes financeiras, que muitas vezes são mais onerosas.
Os dados são claros: apenas algumas fintechs, como Nubank e Inter, conseguiram acumular depósitos suficientes para competir com os grandes bancos em termos de custo. As demais, segundo os especialistas, enfrentam um “funding” estruturalmente caro, que acaba sendo repassado ao consumidor. Este sistema fez com que a inclusão financeira dos de menor renda se tornasse mais cara, levando os tomadores de crédito a contrair dívidas em condições desfavoráveis, como no caso do rotativo do cartão de crédito.
Adicionalmente, a infraestrutura de concessão de crédito carece de um olhar mais atento para o perfil de risco e endividamento dos consumidores. Enquanto os procedimentos para investimentos são rigorosos, a análise das dívidas não recebe a mesma consideração. Isso levanta questões sobre a responsabilidade das instituições financeiras em evitar o superendividamento de seus clientes.
A situação é ainda mais complicada para a população com renda de até três salários mínimos, que destina uma parte considerável de seus ganhos para despesas básicas. O crédito, que deveria servir como alavanca para o consumo e construção de patrimônio, muitas vezes acaba sendo apenas uma forma de conseguir fechar as contas no final do mês.
Medidas como o programa Desenrola, que visa ajudar na renegociação de dívidas, não abordam a raiz do problema, que é a disparidade entre a renda e os custos de vida. Para uma verdadeira solução, especialistas apontam a necessidade de medidas macroeconômicas que reduzam o custo do dinheiro e aumentem a renda das famílias, além de uma regulação mais clara e eficiente no mercado de crédito.
Essas propostas visam não apenas aliviar a situação atual, mas prevenir que muitas pessoas voltem ao ciclo de endividamento. Sem uma mudança estrutural, a inclusão financeira poderá se tornar uma armadilha, onde os novos “bancarizados” se veem aprisionados em dívidas.
