Segundo investigações, socorristas e médicos ganhavam propina de diretores de UTIs para encaminhar pacientes, que às vezes nem precisavam ser internados, às suas instituições, na Grande Goiânia
O Ministério Público de Goiás deflagrou nesta terça-feira a operação SOS Samu que apura irregularidades no encaminhamento de pacientes de ambulância para Unidades de Terapia Intensiva (UTI) privadas em Goiânia e cidades do entorno da capital. A promotoria levantou indícios de que médicos e servidores do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) recebiam propina de empresários da saúde para direcionar atendimentos às suas unidades.
Em alguns casos, as socorristas pioravam o quadro clínico dos pacientes, como por exemplo induzi-los ao coma, para justificar a internação, que, a princípio, não era necessária. Em outros, o resgatado com risco de vida era levado para um hospital mais distante que fizesse parte do esquema criminoso. O MP apura se essas práticas levaram alguém à morte.
“Temos uma testemunha que foi ouvida e nos disse que um paciente, vítima de AVC gravíssimo, foi atendida pelo Samu e eles estavam praticamente em frente a um hospital. Fizeram, então, contato com o médico regulador e ele determinou que o paciente fosse encaminhado para outro local. Ela disse: ‘Mas não dá tempo’. E ele: ‘Eu estou mandado ir para tal lugar’. Ou seja, onde se pagava propina”, relatou o coordenador do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organização (Gaeco) de Goiás, Luis Guilherme Gimenes, durante coletiva de imprensa.
Nesta terça-feira, foram presas temporariamente 21 pessoas acusadas de integrar o esquema. Entre elas estava um diretor do Samu, um dono de hospital, chefes de UTIs, socorristas e bombeiros. As investigações se iniciaram a partir da denúncia de um ex-servidor do Samu e foram baseadas em planilhas apreendidas e o rastreamento de transferências bancárias. Os suspeitos devem responder por organização criminosa e corrupção passiva e ativa. Se for confirmado que houve alguma morte em decorrência das fraudes, eles também serão acusados de homicídio. Além dos mandados de prisão, foram cumpridos 43 de busca e apreensão em Goiânia, Aparecida, Anápolis e Senador Canedo.
O grupo mirava apenas pacientes que possuíam planos de saúde. Isso porque os que não possuíam cobertura privada tinham o atendimento pago pelo Sistema Único de Sáude (SUS).”Tanto que os servidores não queriam ser lotados na periferia porque ali não teriam clientes”, disse o promotor. Segundo as investigações, os médicos responsáveis pelo encaminhamento chegavam a receber até 15.000 reais por paciente, o que equivale ao valor de uma diária em UTI. Os servidores, por sua vez, ganhavam de 100 a 500 reais. Os valores indevidos também variavam de acordo com a qualidade do plano de saúde das vítimas.
Site: veja.abril
