SENADO FEDERAL – Comissão de Direitos Humanos debate Holocausto Cigano e estratégias para combater o anticiganismo e outras formas de intolerância étnica no Brasil.

Na última terça-feira, a Comissão de Direitos Humanos (CDH) organizou uma audiência pública com o objetivo de discutir a memória do Holocausto Cigano, conhecido como Holocausto Romani, bem como o combate ao anticiganismo e outras formas de intolerância étnica. O evento contou com a participação de pesquisadores, representantes de instituições de memória, especialistas em direitos humanos e lideranças ciganas, que compartilharam suas perspectivas sobre a perseguição que os ciganos, especialmente os povos rom e sinti, sofreram durante o regime nazista e os desafios enfrentados até os dias de hoje no Brasil.

Os debatedores enfatizaram a importância de preservar a memória das vítimas do Holocausto como uma ferramenta crucial para a educação, a cidadania e a promoção dos direitos humanos. Eles pleitearam a implementação de políticas públicas que combatam o racismo e a discriminação contra as populações ciganas. A senadora Damares Alves, presidente da CDH, que propôs a audiência, lembrou que durante a Segunda Guerra Mundial, estima-se que até 500 mil ciganos foram mortos pelo regime nazista. Damares também salientou a relevância de preservar essa memória como um compromisso com a verdade e a justiça, além de uma medida para prevenir futuras violações dos direitos humanos.

A especialista Aline Miklos, pertencente ao povo rom, destacou que a rememoração do Holocausto Romani é essencial para entender a origem histórica da perseguição aos ciganos e para combater o racismo persistente nas sociedades contemporâneas. Segundo Miklos, o anticiganismo vai além do preconceito; trata-se de uma forma específica de racismo que remonta a períodos históricos, como o colonialismo, e que continua a se manifestar através da discriminação e exclusão.

O cientista social Igor Shimura alertou que a retórica de ódio é frequentemente o primeiro passo em direção à violência contra grupos vulneráveis. Ele ressalta que a desumanização, iniciada pelas palavras, pode justificar políticas discriminatórias e que um combate eficaz a essa questão deve passar pela educação e formação crítica da sociedade.

Marcos Toyansk Guimarães, coordenador do Grupo de Estudos Ciganos da USP, mencionou a longa e trágica história de perseguição compartilhada entre judeus e ciganos, observando que o reconhecimento das vítimas ciganas se deu tardiamente após o Holocausto. Já o coordenador-geral do Museu do Holocausto de Curitiba, Carlos Reiss, defendeu a criação de um Dia Nacional em Memória do Holocausto Cigano e a implementação de um plano nacional contra o anticiganismo.

Durante a audiência, um aspecto crítico levantado foi a invisibilidade estatística dos ciganos no Brasil. Aline Miklos expôs que a ausência de dados oficiais dificulta a elaboração de políticas públicas eficazes. Estima-se que entre 800 mil e 1 milhão de pessoas no Brasil se identificam como ciganas, porém, não há contagem oficial dessa população, o que perpetua sua marginalização.

A audiência culminou com uma apresentação de dança feita por membros da comunidade cigana de Trindade, celebrando a rica cultura cigana e homenageando as vítimas do Holocausto Romani, reforçando a importância de lembrar e educar sobre essas trágicas experiências históricas.

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