Cigarros Eletrônicos e a Recrutamento de Jovens: Um Alerta de Especialistas
Na última audiência pública da Comissão de Assuntos Sociais (CAS), realizada a pedido da senadora Damares Alves, especialistas expressaram sérias preocupações sobre a crescente popularidade dos cigarros eletrônicos entre jovens. Durante a sessão, foi destacado que esses dispositivos têm atraído indivíduos que nunca fumaram, aumentando significativamente o risco de dependência de nicotina.
André Salem Szklo, representante do Instituto Nacional de Câncer (Inca), contestou a narrativa disseminada pela indústria cigarreira de que os dispositivos seriam menos prejudiciais em comparação ao cigarro tradicional. Ele ressaltou que a alegação de uma diminuição de 95% nos riscos de saúde está baseada em um relatório de 2015 da Public Health England, que agora é considerado polêmico por muitos especialistas. Dados recentes indicam que quase 90% dos jovens adultos que utilizam cigarros eletrônicos nunca haviam fumado antes, o que levanta questões sobre a verdadeira função desses dispositivos. Szklo advertiu que a ideia de “redução de danos” é enganosa, pois muitos desses jovens podem eventualmente migrar para o tabaco convencional.
Além disso, João Paulo Lotufo e Flávia Fernandes, representantes de sociedades médicas, alertaram sobre os impactos diretos à saúde, principalmente nessa faixa etária. A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) revelou um aumento alarmante na experimentação de cigarros eletrônicos, subindo de 16,8% em 2019 para 29,6% em 2024. Ambos enfatizaram que, embora nem todos os jovens que utilizam esses dispositivos adoeçam, os riscos existentes não podem ser ignorados. Fernandes chamou atenção para a natureza sedutora da nicotina nos dispositivos, que pode induzir a uma dependência rápida e causar alterações irreversíveis no cérebro em desenvolvimento.
Damares Alves também relembrou que a aparência atraente dos produtos, que atraem até mesmo crianças, é um fator preocupante. Produtos com designs infantis e cores chamativas têm sido frequentemente vistos em festas de adolescentes, aumentando a acessibilidade e a normalização do uso entre os jovens.
A senadora destacou que o setor econômico tem exercido uma influência significativa no debate, enfatizando que, por trás das questões de saúde, existem interesses financeiros. A preocupação é que empresas do setor do tabaco estejam apoiando a popularização dos cigarros eletrônicos, alimentando a dependência química nas novas gerações.
Além das preocupações sobre saúde e marketing direcionado aos jovens, Marcelo Couto Dias, secretário da Família, Cidadania e Segurança Alimentar de Osasco, expressou preocupação com a eficácia da fiscalização atual e a fragilidade das proibições existentes. Ele argumentou que a legalização não necessariamente controlaria o consumo, como alguns defendem, citando estimativas de que países que promoveram a legalização enfrentaram aumentos no uso desses dispositivos.
O debate foi impulsionado por um projeto de lei que visa regulamentar a produção e comercialização de cigarros eletrônicos no Brasil. A proposta já se encontra em análise em diversas comissões do Senado, e, até o momento, uma consulta pública sobre a legalização revelou uma divisão de opiniões entre o público, com mais de 18 mil apoiando a iniciativa, em oposição a cerca de 14 mil contrários.
À medida que o tema continua a ser discutido, fica evidente que a questão dos cigarros eletrônicos e seu impacto nos jovens permanecerá no centro das preocupações de saúde pública e políticas regulatórias.





