A orla marítima de Maceió, um dos principais cartões-postais turísticos do estado, está longe de oferecer as condições ambientais que sua imagem paradisíaca sugere. O alerta foi feito pelo arquiteto e urbanista Dilson Ferreira, em vídeo publicado nas redes sociais, no qual ele afirma que toda a faixa litorânea da capital está contaminada por esgoto in natura, comprometendo a balneabilidade das praias.
Segundo Ferreira, a poluição atinge praticamente toda a orla urbana, do Pontal da Barra até Jacarecica, passando por Jaraguá, Pajuçara, Ponta Verde, Jatiúca e Cruz das Almas. Ele destaca que a denúncia não se baseia em percepção pessoal, mas em relatórios oficiais de balneabilidade, que apontam a presença constante de contaminação fecal no mar. Para o urbanista, houve uma “normalização” da presença de águas sujas na praia, o que considera inadmissível.
O arquiteto afirma que atualmente existem entre 15 e 17 pontos de despejo de esgoto lançando resíduos diretamente no oceano todos os dias. Muitas dessas áreas, explica, eram antigas regiões residenciais que não contavam com rede de esgotamento sanitário adequada, utilizando fossas sépticas. Com o avanço da verticalização e a construção de novos empreendimentos, o problema se agravou, já que parte das edificações passou a ligar o esgoto de forma irregular à rede de drenagem pluvial, que deveria receber apenas água da chuva.Ligação irregular de esgoto na Pajuçara | Secom Maceió
Essas ligações clandestinas fazem com que o esgoto seja conduzido pelas chamadas “bocas de lobo” ou manilhas diretamente até a praia. O problema, segundo Ferreira, é agravado pela obsolescência dos sistemas de drenagem e pela ausência de uma rede de esgotamento eficiente em boa parte da cidade. Para ele, Maceió vive hoje um verdadeiro “colapso do saneamento urbano”.
Na avaliação do urbanista, a situação é resultado da falta de investimentos, de fiscalização e de prioridade política. Ele critica a atuação da concessionária responsável pelo serviço de saneamento, classificando sua eficiência como insuficiente, e aponta limitações do poder público em fiscalizar toda a rede de ligações. Apesar disso, reforça que o município possui uma Lei Municipal de Saneamento Básico, sancionada em 2018, considerada moderna e adequada, mas que não vem sendo aplicada de forma efetiva.
Ferreira também contesta o discurso que responsabiliza a população mais pobre pelos alagamentos e pela poluição urbana. Ele questiona por que bairros nobres, como Ponta Verde, Jatiúca e Cruz das Almas, continuam alagando mesmo com serviços regulares de limpeza urbana, o que, segundo ele, evidencia que o problema está na infraestrutura deficiente, e não no comportamento dos moradores.
Para o urbanista, a falta de investimentos em drenagem ocorre porque esse tipo de obra é invisível e pouco atrativa politicamente. “Drenagem fica enterrada, não é instagramável”, afirma, criticando gestores que priorizam obras de apelo visual em detrimento de soluções estruturais.
Dilson Ferreira alerta ainda para os impactos econômicos do problema. Segundo ele, a manutenção da poluição pode afastar turistas, afetando diretamente o setor que sustenta milhares de empregos na capital. “Vai chegar um ponto em que esse colapso vai afastar o turista”, adverte.
Ao final, o urbanista reforça que a escolha entre manter a degradação ambiental ou investir em infraestrutura urbana é coletiva, mas cobra postura, coragem e responsabilidade de vereadores, deputados, secretarias e gestores públicos para enfrentar o problema antes que os danos se tornem irreversíveis.
*Com informações do 082 Notícias
