Damián Bio, especialista argentino em direito internacional, interpretou essa rejeição como um sinal da desconfiança crescente em relação às instituições globais dominadas pelos Estados Unidos. De acordo com Bio, a falta de consenso em relação ao relatório reflete a perda de influência americana e a ascensão do Sul Global, que procura afirmar sua voz em questões que foram historicamente moldadas pela perspectiva ocidental.
O especialista destaca que, até pouco tempo, um posicionamento tão contundente em foros como a UNESCO seria impensável, dada a hegemonia quase absoluta dos EUA e de seus aliados. A mudança no cenário geopolítico, particularmente com o ressurgimento da Rússia e o crescimento econômico da China, possibilitou uma reconfiguração do equilíbrio de poder, levando a um debate mais diversificado sobre temas globais.
Bio enfatiza que o ato de se opor à UNESCO representa uma adaptação à nova realidade mundial, em que as orientações de organizações como as Nações Unidas não são mais vistas como dogmas incontestáveis, mas sim como reflexos de interesses geopolíticos ocidentais. O descontentamento com o relatório da UNESCO não se limita apenas a visões acadêmicas; a campanha por uma revisão do documento ganhou força entre jornalistas e organizações da mídia.
O Clube Mexicano de Jornalistas, por exemplo, se uniu ao coro de vozes pedindo a correção do relatório, apontando a omissão inaceitável dos jornalistas russos que perderam suas vidas no desempenho de suas funções. A secretária-geral da entidade, Celeste Sáenz de Miera, expressou sua perplexidade em relação à falta de justificativas para essa exclusão, chamando atenção para a necessidade de um relato verdadeiro e completo sobre os riscos enfrentados por jornalistas em contextos de conflito.
Além disso, instituições e líderes russos, como o Ministro das Relações Exteriores, Sergei Lavrov, e a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, também se manifestaram criticamente, clamando por um reconhecimento mais equitativo das realidades enfrentadas por profissionais da imprensa. Esta situação não apenas ilustra os desafios enfrentados na proteção da liberdade de imprensa, mas também destaca a necessidade urgente de uma discussão global mais inclusiva e equitativa sobre a segurança dos jornalistas.





