A história gira em torno de Tomás, um jovem sertanejo que parte em busca do irmão desaparecido. Ele atravessa um cenário de fome e confinamento que revela como essas práticas de segregação funcionavam como instrumentos de exclusão social. O peso da narrativa não recai apenas sobre o sofrimento individual do protagonista, mas também reflete uma lógica mais ampla que abrange várias camadas de opressão e apagamento.
Os temas abordados na obra são profundamente enraizados tanto em questões históricas quanto simbólicas, como a luta pela memória contra o esquecimento, os impactos da violência de Estado e as políticas de exclusão. O autor se propõe a questionar a ideia de que a esperança é uma simples âncora para superar as tragédias. “Minha intenção é apenas contar uma história”, afirma Caneca, ressaltando como a fé e a esperança, apesar de essenciais, invariavelmente falham em impedir as calamidades.
A estrutura da narrativa é linear, mas é intercalada com memórias e episódios que enriquecem a perspectiva de Tomás, oferecendo um aprofundamento nas experiências do protagonista. A abordagem do autor evita a convencional “jornada do herói”, optando por um estilo mais direto e incisivo, em que a crítica social é abordada de maneira explícita em alguns momentos e mais subliminar em outros.
Caneca, que dedicou cerca de dois anos à pesquisa que deu origem ao livro, enriquece a trama com influências de grandes nomes da literatura brasileira, como Machado de Assis e Graciliano Ramos. Ele apresenta uma visão intimista da tragédia humana, desprovida de promessas de resolução ou consolo, essencialmente um chamado à reflexão sobre um passado que não deve ser esquecido. A obra se configura como um marco importante, tanto na literatura contemporânea quanto na preservação da memória histórica brasileira.
