Analistas têm apontado que a saída de Assad não só abre espaço para o HTS, que promete um governo moderado, mas também fortalece o papel da Turquia na região, colocando o presidente Recep Tayyip Erdogan em uma posição de destaque. Historicamente, a Turquia tem exercido um papel central no conflito sírio desde 2016, e agora, com a mudança nos poderes sírios, Erdogan é visto como uma figura chave nas negociações para uma potencial transição política.
Andrew Traumann, professor de relações internacionais, expressa um ceticismo quanto à capacidade do HTS de implementar uma governança moderada. Ele observa que, enquanto isso pode ser uma estratégia de marketing, a organização ainda é vista com desconfiança, sendo ligada a outros grupos extremistas. Nesse contexto, Erdogan está sendo “bajulado” pela União Europeia, reflexo das suas relações estratégicas e da sua influência crescente nas decisões relacionadas à Síria.
Enquanto isso, a questão curda se mostra complexa. A aspiração dos curdos de estabelecer um estado próprio se choca com os interesses da Turquia, que considera os grupos curdos como ameaças. Isso limita o suporte dos curdos por parte de atores ocidentais, enfraquecendo sua posição em potencial.
A professora Dominique Marques destaca que o fortalecimento da Turquia se dá em um momento em que a Rússia se concentra em seu próprio conflito na Ucrânia, permitindo que Erdogan aspire a um papel de liderança que se assemelhe ao legado do Império Otomano. Essa ambição pode intensificar disputas por influência no Oriente Médio, especialmente em relação à Palestina e a Israel.
Marques também revelou que a ascensão do HTS pode ter sido facilitada pela Turquia, indicando uma possível aliança não oficial entre os dois, onde o HTS se comprometeria a manter a integridade territorial da Síria em troca de apoio militar. Esse cenário permitiria a Erdogan devolver os refugiados sírios que vivem na Turquia, criando mão de obra para a reconstrução do país.
Assim, a Síria emerge como um “ponto estratégico” para a Turquia, em suas aspirações de reestabelecer-se como um player dominante na região, além de representar uma oportunidade valiosa em um contexto geopolítico em evolução. A complexidade da situação síria, evidentemente carregada de interesses conflitantes, permanecerá em evolução, levantando questões sobre a estabilidade e o futuro do país nos próximos anos.






