Em artigo publicado nesta semana, o auditor fiscal e doutorando em Economia João Carlos Loebens sustenta que o discurso moralizante de combate à corrupção tem sido, historicamente, um dos principais instrumentos utilizados pelas elites econômicas e midiáticas brasileiras para legitimar rupturas democráticas e preservar privilégios concentrados no topo da pirâmide social.
Segundo o autor, o apelo à moralidade pública reaparece com força em momentos de crise política e eleitoral, sempre acompanhado da tentativa de deslegitimar governos eleitos que contrariem interesses oligárquicos. “O combate à corrupção é um valor inquestionável na sociedade. Por outro lado, a corrupção real, sistêmica e estrutural do Brasil é a apropriação do Estado por uma minúscula oligarquia econômica”, afirma.
Loebens argumenta que, embora o discurso moral seja apresentado como universal e incontestável, sua aplicação prática é seletiva e instrumental. Para ele, trata-se de uma narrativa construída para “camuflar e legitimar privilégios e dominação”, sobretudo quando setores da elite perdem disputas eleitorais. “Essa é a ferramenta predileta da elite para justificar aquilo que sempre executou quando perde o jogo democrático: o golpe de Estado”, escreve.
O artigo percorre episódios centrais da história política brasileira para sustentar a tese. Na avaliação do autor, tanto a Proclamação da Independência quanto a Proclamação da República não romperam com as estruturas de concentração de poder e riqueza. “A República de 1889 foi um golpe militar das oligarquias agrárias, mantendo intactas as bases da desigualdade social”, aponta.
O mesmo padrão, segundo Loebens, se repetiu ao longo do século XX. Ele destaca que Getúlio Vargas tornou-se alvo central da elite oligárquica ao criar políticas trabalhistas e instrumentos de desenvolvimento nacional. “A CLT, o salário mínimo, a Petrobrás e o BNDES representavam uma afronta direta à ordem oligárquica”, afirma. Para o autor, a campanha moralista que cunhou a expressão “mar de lama” foi decisiva para o desfecho trágico do suicídio de Vargas, em 1954.
A análise avança sobre os governos de Juscelino Kubitschek e João Goulart, apontados como alvos de campanhas semelhantes. No caso de Jango, Loebens afirma que o discurso moral associado ao medo do comunismo abriu caminho para o golpe militar de 1964. “Foi criada a imagem de um governante corrupto, imoral e ameaça à família, justificando a ruptura institucional”, escreve.
Para o autor, a ditadura instaurada após 1964 se apresentou como uma “revolução moral”, mas, na prática, reforçou a concentração de renda e reprimiu qualquer ameaça à ordem econômica vigente. “O discurso de limpeza moral serviu para impor um projeto econômico excludente”, avalia.
No período recente, Loebens destaca a eleição de Fernando Collor, em 1989, como exemplo emblemático do uso do moralismo político aliado à mídia. Ele cita a edição do debate presidencial, a cobertura do sequestro de Abílio Diniz e a exibição da chamada “pasta de denúncias” contra Lula. “Collor foi construído como o ‘caçador de marajás’, mas caiu dois anos depois por corrupção”, ressalta.
O impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2016, é apontado como o ápice contemporâneo dessa lógica. “Sem crime de responsabilidade ou enriquecimento ilícito, criou-se uma atmosfera de crise ética necessária para derrubar um governo legitimamente eleito”, afirma o autor.
Segundo Loebens, a Operação Lava Jato cumpriu papel central nesse processo ao criminalizar seletivamente a política e deslegitimar projetos nacionais. “O verdadeiro alvo nunca foi o combate à corrupção, mas a reconquista total do Estado por uma oligarquia que se vê como dona do país”, escreve.
Ao tratar do cenário atual, o autor afirma que o mesmo roteiro se repete sempre que setores da elite se veem ameaçados nas urnas. “A histeria moral reaparece, acompanhada de acusações seletivas e apelos por intervenção das forças ‘puras’ contra a ‘bandidagem’ no poder”, analisa.
Para Loebens, a pergunta central diante desses discursos não deve ser apenas sobre a existência de crimes, mas sobre sua função política. “Quem esse discurso beneficia? Que projeto de país ele pretende viabilizar?”, questiona.
Encerrando o artigo, o autor propõe uma releitura da célebre frase de Bill Clinton. “No Brasil, não é a corrupção. É golpe de Estado”, conclui. Segundo ele, enquanto o combate à corrupção permanecer como retórica dissociada da prática, a democracia brasileira continuará “tolerada apenas quando não ameaça os privilégios oligárquicos”.






