A Memória das Coisas Perdidas: A Poética de André Santa Rosa
O jovem poeta alagoano André Santa Rosa apresenta em sua obra “Praia esgarçada alegria” um extenso poema que explora a temática das pessoas desaparecidas e lugares que já não existem. A obra se desdobra em reflexões sobre a memória fragmentada, onde a lembrança se transforma em um espaço de dor e saudade. Neste contexto, Santa Rosa evoca imagens marcantes, como o voo de uma garça que serpenteia a costa ou a aterradora narrativa de corpos lançados ao mar, evocando um profundo sentido de perda.
Na teia de suas palavras, os personagens parecem emergir de um passado nebuloso; figuras como Mário de Andrade desfrutam de uma praia imaginária em Maceió, enquanto ecos de vítimas da ditadura militar assombram imagens do antigo DOI-Codi. A presença de Graciliano Ramos, por sua vez, entwined com a curiosidade dos turistas, sugere uma reflexão sobre a identidade cultural e os vestígios de uma história por muitos esquecida. Além disso, a menção aos primeiros Caetés, dispersos entre a ilha de Itamaracá e o rio São Francisco, reflete a rica tapeçaria histórica e social da região, repleta de figuras e narrativas que clamam por reconhecimento.
A poética de Santa Rosa se assemelha à ação de abrir uma caixa de fotografias antigas, onde cada imagem traz à tona um fragmento de uma narrativa mais ampla, marcada por transformações e perdas. Assim, o leitor é convidado a refletir: “Em que momento a alegria silenciosamente se apaga?”. Esta indagação ressoa ao longo do poema, levando a uma meditação sobre a ausência, o vazio deixado pelas pessoas amadas que partiram, comumente evocando associações com histórias de desaparecimento forçado.
Com isso, a obra assume um caráter de resistência diante das distâncias emocionais e temporais. Enquanto celebra os momentos simples que nos conectam, como o sorriso de um sobrinho ou a lembrança da avó, Santa Rosa propõe um eloquente questionamento sobre o que realmente separa as nossas vivências mais significativas. Através de uma linguagem intensa e sensível, o autor nos instiga a confrontar os abismos criados pelo tempo e pela memória, tornando sua obra uma reflexão indispensável sobre a fragilidade da existência e as marcas indeléveis que deixamos uns nos outros.
André Santa Rosa, nascido em 1999 em Maceió, é um autor promissor que desenvolve suas ideias em “retratos de ruínas & outros fantasmas comuns” e tem contribuído com poemas para diversas publicações literárias. Sua atuação como crítico em suplementos literários demonstra sua profundidade de pensamento e dedicação à literatura, reafirmando a importância de sua voz na cena atual.
