“Viraram parcelas no cartão de crédito”, desabafa a jovem enquanto reflete sobre a luta diária para equilibrar suas finanças. Ela menciona que, em um dia bom, pode arrecadar cerca de R$ 300, mas essa quantia não é suficiente quando é necessário parar por qualquer razão, seja uma falha no veículo ou um desgaste físico.
A experiência de Bárbara é ilustrativa de uma pesquisa recente divulgada pelo Tribunal Superior do Trabalho (TST), que evidencia a crescente preocupação com o nível de endividamento enfrentado pelos motoristas de aplicativos. O estudo aponta que a instabilidade e a imprevisibilidade da atividade geram um ambiente propício para o acúmulo de dívidas, amplificado pela oferta de empréstimos diretamente através das plataformas de transporte.
Esses empréstimos podem ser descontados automaticamente dos ganhos dos motoristas, com taxas que chegam a 30%. De acordo com os pesquisadores, essa prática é uma forma digitalizada de exploração que perpetua condições de trabalho precárias. No Brasil, mais de 1,7 milhão de indivíduos dependem de plataformas digitais para seu sustento, enquanto essas empresas se esquivam de qualquer responsabilidade relacionada ao vínculo empregatício, transferindo os custos e riscos para os trabalhadores.
Além disso, os motoristas enfrentam uma taxa de desconto que varia de 20% a 30% de seus ganhos devido à intermediação, sem que a transparência dos cálculos seja garantida. Os custos mensais da atividade podem ultrapassar R$ 5 mil, segundo um estudo que analisa o perfil de motoristas que trabalham oito horas diárias, durante 22 dias no mês.
As despesas englobam combustível, manutenção do veículo, seguros, tributos e até alimentação, somando um total médio de R$ 5.566 para motoristas com veículos próprios. O presidente do TST, Luiz Philippe Vieira de Mello Filho, apontou que a noção de “liberdade empreendedora” tem se transformado em um disfarce para violar a dignidade dos trabalhadores.
O cientista político Leonardo Sakamoto já havia comentado sobre essa precarização em entrevistas anteriores, afirmando que muitos motoristas caem em um “conto do vigário” ao acreditarem que a atividade renderia tanto quanto esperavam. Para Bárbara, que está há quatro anos nesse ramo, a situação é insustentável. “É tudo do nosso bolso. Não consigo me imaginar fazendo isso nos próximos cinco anos”, conclui, antecipando um futuro incerto nesta profissão.
