Moradores de condomínio de luxo tentam impedir prédios populares na vizinhança

No condomínio Martese Alto da Lapa, na Avenida Imperatriz Leopoldina, apartamentos de 4 dormitórios com varanda gourmet são anunciados por preços a partir de R$ 1,7 milhão. Do outro lado da rua, a menos de 100 metros, um terreno da Prefeitura de São Paulo pode virar moradia para mais de 500 famílias que hoje vivem nas favelas da Linha e do Nove, a 1 km dali.

A proximidade das novas casas populares faz com que moradores de condomínios de alto padrão da Vila Leopoldina, bairro da Zona Oeste de São Paulo, pressionem a prefeitura para tentar impedir a construção das moradias no bairro. Para moradores das favelas, o projeto é uma chance de deixar uma habitação precária.

A construção das moradias faz parte de uma ação ainda inédita em São Paulo, em que a iniciativa privada constrói as Habitações de Interesse Social e, em troca, ganha o direito de construir outros prédios com mais andares. Neste caso, em uma das regiões de maior interesse do setor imobiliário da cidade. A proposta ainda será enviada à Câmara de Vereadores.

Um abaixo-assinado na internet criado pela Associação Viva Leopoldina – que se define como associação que congrega “moradores, empresários e trabalhadores em defesa do bairro” – tem mais de duas mil assinaturas. A petição diz que eles não aceitam “a transferência das favelas da Linha e Nove para o terreno (…) exportando os graves problemas sociais existentes para local”.

O projeto ficou em consulta pública por um mês na página da Prefeitura, até o final de maio. Neste período, a Associação Viva Leopoldina distribuiu orientações aos moradores dos condomínios de como postar comentários na página. O texto explicativo da associação dizia que “querem empurrar os moradores das favelas para o meio do bairro, a 900 metros de onde estão atualmente, formando uma mega-favela vertical”.

Há centenas de comentários na página da Prefeitura. Muitos falam em uma possível degradação das novas unidades habitacionais e outros em desvalorização de seus imóveis. “Não é fácil ver nosso patrimônio, que com tanto suor foi adquirido, ser desvalorizado dessa maneira.”

Morador da Favela do Nove, o técnico em segurança do trabalho Maurimar de Sousa, de 23 anos, disse que os moradores também se preocupam com a manutenção do local, e que irão se empenhar para cuidar das novas moradias. “Todo mundo quer sair da favela, e não tornar os prédios outra favela.” Ele mora no Nove desde os sete anos, quando chegou do Piauí, e apóia a mudança. Quando chove forte, segundo ele, o esgoto fica na altura da canela. Maurimar mora em um barraco de madeira de um cômodo com mais quatro familiares, informa o G1.

O caro IPTU da região também é usado como argumento nos comentários da consulta pública. “Não posso concordar com o uso proposto para esse terreno, uma vez que o valor médio do IPTU dos imóveis localizados na mesma rua é superior a R$ 6.000.”

Uma das principais críticas dos moradores dos condomínios é sobre o solo onde serão construídas as moradias. Bairro de origens industriais, a Vila Leopoldina tem diversos terrenos contaminados, e este é um deles. A Prefeitura confirma o diagnóstico nocivo, mas diz que isso não impedirá a obra porque o local será descontaminado, assim como outros da região que passaram pelo mesmo processo.

Um grupo chamado “Defenda Vila Leopoldina”, que representa 864 famílias, formado pelos condomínios Martese Alto da Lapa, Riservato Alto da Lapa, Vila Nova Leopoldina I e Vila Nova Leopoldina II, contratou o premiado escritório de advogados BMA Barbosa Mussnich Aragão – que já assessorou empresas como Odebrecht e Oi – para tentar reverter o projeto.

Uma carta com a assinatura de seis advogados foi enviada à Prefeitura em maio. No terreno, em vez das moradias, eles sugerem a implantação de um parque público. “O que faz mais sentido quando dada a pobre arborização da Avenida Imperatriz Leopoldina e a ausência de praças e parques ao longo dessa avenida”, diz o texto. A cerca de 1 km da avenida, está o Parque Villa-Lobos.

Em março, o ex-prefeito João Doria (PSDB) desistiu de projeto de moradia popular para o terreno onde hoje funciona a Ceagesp, também na Vila Leopoldina, e prometeu um pólo tecnológico no lugar.

04/06/2018

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