Mestre Biloco, ícone da cultura pernambucana, morre aos 83 anos e deixa um legado imensurável na tradição musical e popular de Goiana.

Neste sábado, 11 de abril, a cidade de Goiana, situada na Mata Norte de Pernambuco e a 65 quilômetros do Recife, testemunhou uma perda inestimável com a morte de Severino Luiz de França, conhecido carinhosamente como Mestre Biloco. Aos 83 anos, o músico faleceu em sua residência, deixando um vazio que será difícil de preencher na rica tapeçaria da cultura popular pernambucana. A família ainda não divulgou os detalhes sobre o velório e o sepultamento.

Mestre Biloco foi mais do que um simples músico; ele era uma verdadeira instituição da cultura local. Com uma carreira que abraçou a liderança de orquestras de frevo, regências de maracatu e a mestria na ciranda, Biloco foi um renomado maestro e um guardião das tradições que se enraizaram em Goiana e em toda a região da Zona da Mata Norte. Nascido no Sertão pernambucano, à idade de quatro meses, ele se mudou para Goiana, onde desenvolveu seu talento musical de forma autodidata, influenciado por seu irmão mais velho.

Sua carreira formal começou em 1971 com a fundação da Ciranda dos Cangaceiros, um grupo que se tornou um dos mais antigos de Pernambuco, uma autêntica homenagem a Lampião, figura emblemática do cangaço nordestino. Biloco sempre manteve a tradição viva, utilizando trajes e adereços que remetiam ao cangaceiro, além de fazer uso de seu icônico apito para sinalizar o início da ciranda.

Ele era conhecido por sua habilidade em transitar por diversos estilos musicais, liderando a Ciranda dos Cangaceiros, atuando no Leão do Fortaleza e regendo orquestras. Notável como um “mestre completo”, sua ciranda singela e única, com estrofes curtas e repetitivas, refletia a profundidade de uma tradição que é Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil desde 2021.

Biloco também foi educador, formando gerações de músicos através da Banda Musical Independente Senhor Bom Jesus dos Passos, que operava em sua própria casa. Seu foco na sabedoria e no amor como fundamentos para a cultura ecoa nas palavras de seus alunos.

Em setembro de 2023, ao completar 80 anos, Mestre Biloco concretizou um sonho: a Festa das Primaveras, uma celebração de sua trajetória que resultou na gravação de um álbum com 13 canções autorais, um testemunho de sua vida dedicada à música.

Agora, a morte de Biloco traz um luto profundo à memória cultural de Pernambuco. Suas contribuições indefinidas para a ciranda, o maracatu e a tradição pernambucana estarão eternamente gravadas nas faixas que ele deixou. O eco de seus ensinamentos e canções permanecerá nas ruas de Goiana, perpetuando a “cultura do amor” que ele tanto prezou. Apesar da tristeza causada por sua partida, é inegável que a música e a tradição seguem seu curso, alimentadas pela chama que Biloco soube acender em todos ao seu redor.

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