Rayane, que se sente sozinha nesta jornada, relatou que essa rotina desgastante a fez adoecer, resultando em um quadro de ansiedade generalizada e insônia. “A sensação de ser a única responsável por ele é avassaladora”, confessa. No entanto, uma luz surgiu no horizonte quando seu filho começou um tratamento à base de canabidiol (CBD) há três meses. O efeito positivo foi imediato, trazendo uma redução significativa nas crises e melhorando seu comportamento.
Esse tratamento foi viabilizado pelo Projeto Noronha, uma iniciativa liderada pela Associação Brasileira de Estudos dos Canabinoides (Abecmed), em colaboração com a Associação de Mães Atípicas de Fernando de Noronha (AMA-FN) e a Administração Distrital da ilha. Este projeto promoveu mutirões de saúde, oferecendo a famílias locais o acesso gratuito a consultas médicas e a distribuição de óleos de canabidiol. No total, 126 consultas foram realizadas e 221 frascos de óleo foram doados.
Além de oferecer tratamento, o projeto está em vias de criar uma sede destinada a apoiar integralmente as famílias neuroatípicas do arquipélago. A ideia é construir uma rede de suporte que retorne à comunidade a cada três meses, permitindo um acompanhamento contínuo. “Em Noronha, estamos criando uma estrutura que perdura, diferente do que é visto em outras regiões”, afirma Alexandre Assis, diretor da Abecmed.
A atenção às necessidades das mães, particularmente, é um aspecto central do projeto. Muitas dessas mulheres carregam sozinhas o peso do cuidado integral de seus filhos e, como Ladislau Porto, um dos idealizadores, enfatiza: “Quando a criança está em crise, ela tem a mãe. Mas, quando a mãe entra em crise, muitas vezes não tem ninguém ao seu lado”.
Rebeca Allen, presidenta da associação de mães do arquipélago e mãe de um menino de sete anos com TDAH, também é um testemunho da sobrecarga emocional que muitas mães enfrentam. A busca por ajuda médica para seu filho acabou por revelar sua própria luta contra a depressão e a ansiedade. Desde que iniciou o tratamento com canabidiol, Rebeca notou melhorias não apenas em sua saúde mental, mas também na colaboração e comportamento de seu filho.
Com o crescimento das iniciativas de tratamento com canabidiol, o Projeto Noronha não só atende a uma demanda imediata, mas aborda uma questão estrutural da saúde pública da ilha, que enfrenta dificuldades em acesso a cuidados médicos adequados. A distância de 545 quilômetros até o continente para serviços especializados torna as viagens para atendimento um esforço ainda maior para os residentes.
Além disso, a população de Noronha vive um paradoxo: a beleza natural do lugar contrasta com altos índices de problemas psicológicos, como depressão e ansiedade, exacerbados pelo isolamento geográfico. Dados recentes mostram que a maioria dos atendimentos realizados durante os mutirões foi motivada por questões de saúde mental.
Com o aumento do interesse no uso medicinal da cannabis, o Projeto Noronha está focando não apenas na cura, mas na construção de uma rede de suporte integral que possa transformar a vida das famílias que enfrentam desafios semelhantes. A esperança é que, por meio das pesquisas e cuidados oferecidos, um novo horizonte se abra para essas comunidades, garantindo um futuro mais saudável e acolhedor.
