Luta Indígena no Brasil: Terra como Mãe, Não Mercadoria

A Terra como Mãe: A Luta Indígena em Mato Grosso do Sul

No Mato Grosso do Sul, onde reside a terceira maior população indígena do Brasil, a luta pelo território toma forma de resistência cultural e socioeconômica. Com mais de 80 mil indígenas, as comunidades Guarani-Kaiowá e Terena enfrentam uma realidade marcada por conflitos fundiários, superlotação de reservas e a busca por reconhecimento de direitos essenciais. O estado é um dos maiores produtores de soja e carne bovina do país, enquanto as populações indígenas lutam por espaço e dignidade.

A visão dos indígenas sobre a terra se distancia radicalmente da perspectiva mercadológica promovida por muitos não indígenas. Para os Guarani-Kaiowá e Terena, a terra não é apenas um bem a ser explorado, mas uma extensão de suas vidas, a “mãe” que nutre e sustenta a cultura, a espiritualidade e o modo de vida. Dioni Alcântara Batista, coordenador regional da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI) em Campo Grande, resume essa conexão afirmando que a terra fornece não só alimento, mas também a base de sua identidade.

Entretanto, a luta pela demarcação de terras é uma batalha demorada e complexa, que muitas vezes se arrasta por décadas. A Terra Indígena Buriti, por exemplo, passou por um longo processo judicial que teve início 26 anos atrás e ainda não está totalmente resolvido. As reivindicações são frequentemente acompanhadas por tensões e violência; o estado registrou 33 assassinatos de indígenas em 2024, refletindo o grave estado de insegurança.

A superlotação das reservas surgiu como consequência do histórico de limitações territoriais impostas, resultando em áreas que não atendem às necessidades da população crescente. Com apenas 2 a 3 mil hectares destinados a essas comunidades, muitos indígenas se veem forçados a migrar para as cidades em busca de melhores condições de vida. Em Campo Grande, mais de 20 mil indígenas, a maioria de etnia Terena, agora habita periferias urbanas, enfrentando desafios de adaptação em um ambiente que desconsidera suas tradições e sabedoria ancestral.

Edna de Souza, filha do líder indígena Marçal de Souza, destaca como essa realidade urbana gera um apagamento da memória e da cultura indígena, enfatizando que sem território, não há educação, saúde e preservação da cultura. Para ela, a conexão com a terra é vital para a identidade indígena e, sem ela, a comunidade perde sua essência.

A luta por reconhecimento e demarcação de terras é intrinsecamente ligada à necessidade de políticas públicas adequadas, como saúde e educação bilíngue, que garantam a sobrevivência cultural e o bem-estar desses povos. A batalha é não apenas pela terra, mas por uma existência digna e a preservação de um modo de vida que respeita a natureza e a ancestralidade. É uma luta pela vida, uma luta pela mãe-terra.

Jornal Rede Repórter - Click e confira!


Botão Voltar ao topo