Lavagem da Escadaria do Bixiga em SP: Bloco Ilú Obá de Min denuncia que abolição da escravidão foi uma farsa e promove reflexão histórica.

No dia 13 de maio, um ato significativo ocorreu na Escadaria do Bixiga, em São Paulo, quando mulheres do bloco afro Ilú Obá de Min realizaram sua tradicional lavagem. Vestidas de branco, elas trouxeram tambores, flores e água de cheiro, reunindo centenas de participantes em uma celebração que, apesar de festiva, carrega uma mensagem crítica e de resistência. O evento, que acontece há mais de duas décadas, busca reafirmar a ideia de que a abolição da escravidão, decretada pela Princesa Isabel em 1888, nunca foi verdadeiramente completa.

Cibelle de Paula, professora e uma das organizadoras do bloco, destacou a importância do 13 de maio como um dia de reflexão e denúncia. “Hoje é uma data politicamente emblemática para a população preta. É um momento de reivindicação e de relembrar que a abolição foi uma falsa promessa”, afirmou Cibelle, que tem se dedicado a levar adiante essa narrativa por meio de um manifesto que é escrito todos os anos para o cortejo.

O bairro do Bixiga, conhecido por suas cantinas italianas, possui um passado que remete também à presença de comunidades afro-brasileiras, como o Quilombo Saracura. Durante o evento, Cibelle enfatizou que é essencial não apenas celebrar as raízes africanas, mas também destacar a luta contínua por direitos e reconhecimento, lembrando que o dia seguinte à promulgação da Lei Áurea foi marcado pelo abandono e desamparo da população negra no Brasil, que sequer teve seu direito à cidadania garantido.

A Lavagem do Bixiga também adquire um caráter formativo, especialmente para crianças e jovens da comunidade, funcionando como um espaço de aprendizado e afirmação da identidade negra. A publicitária Adrieli Santos, que participou do evento, destacou como a presença de um bloco composto majoritariamente por mulheres negras oferece uma “força muito grande”, simbolizando um ato de resistência em um contexto que, muitas vezes, marginaliza as vozes femininas.

A organização Ilú Obá de Min, fundada em 2004, toma seu nome do iorubá e significa “mãos femininas que tocam para o rei Xangô”. Com o crescimento ao longo dos anos, o bloco agora conta com cerca de 400 integrantes, incluindo uma bateria vibrante e um corpo de dança.

É importante ressaltar que, para o Ilú, o Dia da Consciência Negra, comemorado em 20 de novembro, é considerado uma verdadeira celebração, enquanto o 13 de maio permanece como um dia de reflexão sobre as lutas históricas e contemporâneas da população negra no Brasil.

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