O relatório, após meses de análise, identificou problemas estruturais que afetam o futebol no país, sugerindo uma série de modificações necessárias para evitar um agravamento do quadro. Contudo, a falta de ação resultou em um ciclo contínuo de decepções, com a seleção sendo eliminada em momentos críticos por equipes como Suécia, Macedônia do Norte e, mais recentemente, Bósnia, levando a Azzurra a viver um dos maiores jejum de triunfos em Copas do Mundo.
Entre os principais fatores que explicam essa crise, destaca-se o desgaste da Serie A. Nos últimos 20 anos, a liga italiana, que já foi um dos pilares do futebol europeu, perdeu relevância para clubes com poder financeiro superior, como PSG, Manchester City e Chelsea. A falta de investimento e reforma se traduziu em uma diminuição na qualidade dos jogadores que surgem nas divisões inferiores, afetando diretamente o nível técnico da seleção.
Enquanto a Itália ainda é reconhecida por sua tradição na formação de goleiros e defensores, a realidade é bem diferente no ataque. O legado de grandes craques — como Baggio, Totti e Del Piero — não teve continuidade, e a atual geração enfrenta a ausência de jogadores de destaque no cenário global. Os números são reveladores: na última década, apenas dois artilheiros da Serie A eram italianos, um contraste marcante se comparado ao período dos anos 2000, quando as estrelas locais eram mais frequentes. A presença crescente de jogadores estrangeiros, que hoje representam cerca de 68,5% do total na liga, também limita o espaço para a formação de talentos nativos.
Adicionalmente, o modelo de formação de base é alvo de críticas. Especialistas apontam que jovens jogadores frequentemente são inseridos em estruturas que carecem de profissionalismo, muitas vezes lideradas por familiares, o que compromete seu desenvolvimento técnico e tático. Além disso, a resistência em abraçar novas táticas de jogo, como a evolução para um futebol mais dinâmico e menos centrado no tradicional catenaccio, tem contribuído para a queda da competitividade internacional, especialmente em um cenário esportivo que exige velocidade e habilidade técnica.
A instabilidade no comando da seleção é outro ponto que acentua a ausência de um projeto de longo prazo. Diversos treinadores renomados passaram pelo cargo, mas sem oferecer continuidade ou produzir resultados que durassem. Embora a conquista da Eurocopa de 2020 tenha sido um momento de destaque, ela não consegue ocultar as fragilidades fundamentais do sistema.
O alerta emitido por Baggio, ao destacar as questões que afligem o futebol italiano, simboliza a falha crítica da gestão esportiva: reconhecer os problemas sem implementar soluções. Com a saída de Baggio, que se disse frustrado com a falta de resposta da federação, o futebol italiano deixou escapar uma chance valiosa de reformar e revitalizar suas estruturas.
