Investigações da “Abin Paralela” seguem sem desfecho um ano após indiciamentos de cúpula da agência e acusações de espionagem política durante governo Bolsonaro.

Um ano após a conclusão das investigações da Polícia Federal sobre o caso chamado de “Abin paralela”, o desfecho do inquérito, que foi enviado à Procuradoria-Geral da República (PGR), ainda não ganhou contornos definidos. O relatório, apresentado em 15 de junho, revelou que figuras vinculadas ao governo de Jair Bolsonaro teriam utilizado recursos da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) para realizar monitoramento clandestino de autoridades, além de adversários políticos.

O inquérito resultou no indiciamento de 36 pessoas, incluindo o ex-deputado federal Alexandre Ramagem e o vereador Carlos Bolsonaro, ambos do PL-RJ. Ramagem, depois de sua condenação por envolvimento em um esquema golpista, deixou o Brasil e reside nos Estados Unidos. Ele se tornou uma figura central nas investigações, que tomaram impulso após a divulgação de informações pelo jornal O Globo, em março de 2023, sobre a aquisição do sistema FirstMile. Essa ferramenta explorava vulnerabilidades na rede de telefonia celular para rastrear indivíduos previamente definidos em todo o território nacional.

A investigação sugere que a chamada “Abin paralela” foi organizada sob a liderança de Ramagem e usada para articular dossiês e espalhar desinformação para atender a interesses políticos alinhados ao ex-presidente. Curiosamente, Bolsonaro não constou na lista final de indiciados, visto que já respondia a processos relacionados a crimes de organização criminosa no contexto do mesmo golpe. Tanto Ramagem quanto Bolsonaro anteriormente refutaram a existência dessa estrutura paralela dentro da Abin.

Entre as personalidades monitoradas de maneira irregular, estavam membros do Supremo Tribunal Federal, como o ex-presidente Luís Roberto Barroso, assim como dois ex-presidentes da Câmara dos Deputados, Arthur Lira e Rodrigo Maia. A investigação também trouxe à tona o fato de que a atual cúpula da Abin teria obstáculos para fornecer dados cruciais relacionados ao monitoramento. Apesar da gravidade das alegações, a nova administração da agência sempre negou qualquer irregularidade e se colocou à disposição das autoridades competentes.

A PGR, ao ser contatada, não ofereceu comentários sobre o andamento desse caso polêmico, que se mantém como um capítulo obscuro na recente história política do Brasil, levantando questões sobre as práticas de vigilância estatal e a ética no uso de recursos públicos. O silêncio das autoridades competentes levanta temores sobre a transparência e accountability neste processo, em um momento em que a confiança nas instituições é essencial.

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