Analisando essa dinâmica, o professor de relações internacionais da Universidade de São Paulo, Paulo Borba Casella, sugere que essa classificação confere ao governo americano a capacidade de agir contra esses grupos sem a necessidade de uma declaração formal de guerra ou autorização do Congresso. Ele alerta para o potencial dessa medida, que poderia levar a intervenções similares às que ocorreram na Venezuela, onde Nicolás Maduro e sua esposa foram detidos em um contexto de atuação direta dos EUA.
O cientista político Francisco Carlos Teixeira da Silva, por sua vez, destaca que essa abordagem se insere em uma estratégia mais ampla de controle e influência americana na América Latina, evidenciada na nova Estratégia Nacional de Segurança dos EUA, que enfatiza a proeminência americana na região. Teixeira argumenta que a intenção de Washington é reverter a autonomia dos países latino-americanos e reafirmar a hegemonia dos EUA no continente, especialmente em resposta ao crescimento da influência econômica e tecnológica da China.
Ainda no contexto latino-americano, o México também enfrentou essa dinâmica, com facções locais classificadas como terroristas e a subsequente infiltração de agentes da CIA sem autorização do governo mexicano — um exemplo claro das consequências desse tipo de classificação. A recente morte de dois agentes da CIA em solo mexicano, sem o conhecimento do governo local, gerou tensões e ressalta a complexidade desta abordagem.
No Brasil, a decisão de rotular facções como terroristas também pode ter implicações diretas sobre outras questões internas. O professor de economia internacional da UFRJ, Luiz Carlos Prado, alerta que tal designação pode ser usada para justificar repressões a movimentos sociais e outros grupos, levando à limitação ainda maior da política soberana do país.
Esse cenário é representativo da histórica dificuldade dos EUA em reconhecer a autonomia dos demais países e uma tendência de desconsiderar tratados internacionais. A consequência direta é um aumento na margem de manobra para intervenções, muitas vezes respaldadas em argumentos pouco comprovados, mas que fornecem uma justificativa para ações políticas controvertidas.
Assim, a atual estratégia americana em relação ao Brasil e à América Latina expõe uma agenda de controle que, na visão de especialistas, ameaça não apenas a soberania dos países da região, mas também as suas políticas internas e a dinâmica de relações diplomáticas autônomas.
