Quatro em cada dez brasileiros afirmam não saber o que foi o Holocausto, um dos episódios mais graves da história contemporânea. O dado consta da pesquisa inédita “Conhecimento sobre o Holocausto no Brasil”, divulgada nesta quinta-feira (22) pelo Museu do Holocausto de Curitiba, em parceria com a Confederação Israelita do Brasil (Conib), o Memorial do Holocausto de São Paulo e a organização StandWithUs Brasil.
Segundo o levantamento, 40,7% dos entrevistados disseram nunca ter ouvido falar do Holocausto, não saber do que se trata ou não ter certeza se já tiveram contato com o tema. Apenas 53,2% identificaram corretamente o episódio como o genocídio de cerca de seis milhões de judeus promovido pelo regime nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Outros 31,1% não souberam responder, enquanto parte dos participantes associou o Holocausto a definições incorretas, como um conflito militar com milhões de mortos, um movimento cultural ou até um episódio isolado de violência sem comprovação.
A pesquisa foi realizada pelo Instituto ISPO ao longo de 2025, nos meses de abril, setembro e outubro, e ouviu 7.762 pessoas em 11 regiões metropolitanas do país. O estudo traça um panorama inédito sobre o grau de conhecimento da população brasileira a respeito do genocídio nazista e evidencia lacunas significativas na compreensão histórica.
O desconhecimento também aparece em relação a símbolos centrais do Holocausto. Apenas 38,5% dos entrevistados reconheceram Auschwitz-Birkenau como um campo de extermínio nazista. A maioria, 61,6%, não soube responder ou errou ao identificar o maior complexo de campos criado pelo regime nazista, para onde mais de um milhão de judeus e cerca de 200 mil pessoas de outras etnias foram deportados entre 1942 e 1944.
Os dados indicam ainda que o nível de escolaridade influencia diretamente o grau de conhecimento sobre o tema. Entre os entrevistados com Ensino Fundamental, apenas 27,2% acertaram a definição do Holocausto, enquanto entre pessoas com ensino superior ou pós-graduação o índice chegou a 86,2%. Apesar disso, quase 60% afirmaram ter algum conhecimento sobre o assunto, ainda que, segundo os pesquisadores, esse entendimento seja superficial e fragmentado, especialmente entre grupos de menor renda e escolaridade.
Mesmo diante desse cenário, a maioria dos participantes reconhece a importância do ensino do Holocausto. Para 64,4% dos entrevistados, o tema deve ser abordado nas escolas como forma de prevenir episódios futuros de ódio, violência e discriminação. A escola, inclusive, aparece como a principal fonte de informação para quem já ouviu falar do Holocausto, citada por 30,9% dos participantes, seguida por filmes e livros. Museus e espaços de memória foram mencionados por apenas 1,7%, indicando baixo contato direto com instituições dedicadas à preservação histórica.
Para o coordenador-geral do Museu do Holocausto de Curitiba, Carlos Reiss, os resultados revelam não apenas o desconhecimento, mas também o potencial educativo do tema. Segundo ele, a pesquisa oferece dados concretos que permitem identificar públicos prioritários e aprimorar ações educativas. A coordenadora pedagógica do museu, Denise Weishof, reforça que o ensino do Holocausto deve envolver tanto as escolas quanto instituições não formais, como museus e memoriais, atuando de forma complementar.
A pesquisa também mostra que 88,3% dos entrevistados nunca participaram de eventos, palestras ou visitas a museus relacionados ao Holocausto. Ainda assim, 56,6% consideram que museus e memoriais devem ter papel central e contínuo na divulgação e contextualização do tema, enquanto outros 22,3% os veem como complemento ao ensino formal.
Em um contexto marcado pelo avanço da desinformação e do negacionismo histórico, as instituições responsáveis pelo estudo destacam que compreender o Holocausto é fundamental para a promoção dos direitos humanos, o fortalecimento da democracia e a prevenção de novas formas de violência e desumanização. A divulgação dos dados, segundo os organizadores, busca contribuir para o debate público e para a formulação de políticas educacionais voltadas à memória e ao pensamento crítico.






