Roger tinha um início promissor, com um aproveitamento de 57% nos seus primeiros jogos, mas teve seu trabalho maculado por uma insatisfação generalizada entre os torcedores. Desde já, existia um descontentamento em relação à diretoria pela saída do argentino Hernán Crespo, o que agravou a situação de um treinador que começou sua trajetória sob desconfiança. Este caso não é isolado, mas sim um reflexo de um padrão recorrente que afeta técnicos negros no Brasil.
Uma análise detalhada sobre o assunto revelou dados preocupantes: entre 159 treinadores que comandaram as equipes da Série A desde 2016, apenas 11% são negros ou pardos. Enquanto 89,3% são brancos, a quantidade de treinadores pardos e pretos é alarmantemente baixa, sendo representados por 8,2% e 2,5%, respectivamente. Esse cenário expõe uma estrutura racista que se perpetua no futebol, levando a reflexões sobre a súbita falta de paciência e reconhecimento da capacidade dos treinadores negros.
Orlando Ribeiro, que foi treinador do Santos, compartilha um importante insight sobre essa questão. Ele destaca que, embora todos os técnicos enfrentem momentos difíceis, a margem de erro para os negros é significativamente menor, evidenciando a urgência de uma mudança nesse paradigma. A percepção de que pessoas negras são menos capazes intelectualmente ainda persiste, criando um ciclo vicioso que dificulta a ascensão desses profissionais.
O futebol brasileiro, portanto, espelha um problema social mais amplo, revelando a sub-representação e a luta constante contras as estruturas de desigualdade. Os dados mostram que, enquanto uma grande maioria dos jogadores da Série A é negra, essa representatividade não se reflete nas funções de liderança. Esse paradoxo mantém um statu quo que não só prejudica treinadores, mas também perpetua desigualdades em diversos setores da sociedade brasileira.
Em um estudo do IBGE, foi revelado que gerentes e diretores negros recebem, em média, 34% menos do que seus colegas brancos. Esses números são um grito por mudanças, fraturando a ilusão de que o futebol seria uma esfera à parte das questões raciais que permeiam a sociedade. Roger Machado sintetiza essa realidade ao afirmar que o futebol é, em essência, uma caricatura do que somos como nação, perpetuando resquícios de um passado marcado pela escravidão que ainda influencia as estruturas sociais contemporâneas.
