Neste romance, ela aborda uma questão provocativa que a assola: é realmente possível que a consciência sobre privilégio gere mudanças significativas, ou isso resulta apenas em um sentimento de culpa ineficaz? A autora, carioca e radicada em Brasília, trilhou um caminho acadêmico que inclui uma formação em Cinema pela UFF e um mestrado em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Sua narrativa se origina de uma experiência pessoal: em 2016, Flávia se viu em uma pousada em ruínas no Camboja, uma situação que despertou reflexões profundas sobre segurança e os perigos enfrentados pelas mulheres.
O romance examina essa temática ao acompanhar a vida de Alice, uma jovem branca e rica, e de Bárbara, sua colega de classe, vinda da periferia. O que inicia como um ato simbólico de reparação logo se transforma em um embate silencioso entre as duas, culminando em um episódio violento que força a força da culpa e dos privilégios sociais à superfície. Flávia descreve sua obra não apenas como um thriller psicológico, mas como uma “tragédia contemporânea”, alinhando-a com as estruturas trágicas clássicas de Aristóteles, mas adaptadas ao contexto social moderno, onde os deuses são substituídos por forças sociais de classe, raça e gênero.
Nesse panorama, as complexidades das relações entre mulheres são exploradas de forma realista, desmistificando o ideal da sororidade. Flávia destaca que, embora todas as mulheres enfrentem desafios similares, as desigualdades de classe e raça estabelecem uma hierarquia que merece destaque. Para expressar essas nuances, a autora opta por uma linguagem direta e deliberadamente contida, evitando embelezamentos desnecessários na prosa.
Além de sua carreira literária, Flávia mantêm uma perspectiva crítica do mercado editorial no Brasil, evidenciando que a maioria dos grupos editoriais é controlada por famílias ricas das regiões Sudeste. Contudo, reconhece que o cenário está mudando com a ascensão de novas editoras independentes e iniciativas formativas que democratizam o acesso à literatura.
A transição de Flávia de editora para romancista não representa um rompimento, mas sim a continuidade de sua trajetória como uma profissional dedicando-se à literatura. Com “Instruções para desaparecer devagar”, Flávia não apenas incorpora uma nova dimensão à sua carreira, mas também propõe uma nova reflexão sobre sociedade e desigualdade, enquanto já se dedica a um novo projeto literário, evidenciando sua constante busca por novos desafios e histórias.
